Nesta Edição Normas para Publicação Contato Edições Anteriores
Artigos
Alfredo Dib Abdul NourMestre em Administração pela PUC-SP
Coordenador e Professor da FAESP. Consultor e Empresário 
 
coordenacao@faesp.br

MEIO AMBIENTE POR INTEIRO:
UMA DECISÃO ESTRATÉGICA E HUMANA

“O Administrador é um servo. Seu senhor é a entidade que ele administra, e para ela dirige-se sua primeira responsabilidade”
Peter Drucker

Resumo
O objeto de estudo deste texto está em apresentar e repensar a relação entre organizações e o meio ambiente. Nos últimos 40 anos, os movimentos ecológicos têm sido contínuos e crescentes; questionam a relação da empresa com a sociedade, tendo o meio ambiente como uma das pontes de ligação e um dos principais elementos de discussão. A geração de riqueza sustentada na relação linear de transformação da matéria-prima em oferta de produtos começa a ser acrescida de uma responsabilidade no uso e nas conseqüências do processo produtivo. A interferência dos interesses organizacionais no indivíduo, na cultura e no meio ambiente é o fator-chave que contextualiza este trabalho, cuja perspectiva não está só na atribuição às empresas como mentoras no entrar (sem pedir licença) nas estruturas das leis da natureza, como também na própria essência de uma empresa industrial.
A empresa pautada na transformação de matérias-primas em produtos acabados (ou semi-acabados) obtém lucro e passa a ser realimentada ou transformada por outras essências empresariais, como as de organizações não-lucrativas, aquelas que são baseadas em serviços e em trabalho voluntário.
Este texto apresenta como pano de fundo a relevância das empresas lucrativas na sociedade e sua relação com o meio ambiente. A proposta é apresentar inquietações explorando estas duas variáveis em um ambiente mundializado e complexo.

Palavras-Chave: Complexidade, Responsabilidade Social Empresarial, Gestão

Introdução

Nas sociedades modernas, a importância das organizações, espelha-se no avanço científico, no desenvolvimento de bens de consumo e serviços e no fato de atores sociais clássicos como Governo, Igreja e Exército dividirem seu poder com objetivos organizacionais. A interdependência e relevância desses atores clássicos não conseguiu inibir o crescimento do modelo de “empresas lucrativas” e, em função dessa grande interferência em toda a sociedade é que a sua função e o seu papel no início do século XXI devem ser repensados. Neste texto, este repensar tem como foco a interferência dos objetivos organizacionais na natureza.
As organizações do século XX geram porções de riquezas visíveis, grandiosas e mal distribuídas. As sociedades humanas (especialmente, nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento) reverenciam o modelo organizacional empresarial. Trabalhar nestas empresas é um modo de vida para os indivíduos, de receita para o governo, de desenvolvimento para as regiões, de arranjo social e familiar. A aquisição de produtos e serviços oferecidos pelas empresas não só fazem parte do dia-a-dia, mas também suprem necessidades básicas dos indivíduos. É no trabalho em ou para uma organização que o indivíduo tem a possibilidade de objetivar suas subjetividades. O “progresso” é mais facilmente percebido, e até mesmo aceito, quando obtido nas empresas.
Além de produtos e serviços, profissões e riquezas, estruturas e sistemas, o modelo organizacional de empresa lucrativa desenvolveu formas de administrar que foram moldando-se no tempo por meio de algumas contribuições: como o militarismo, a eficácia de Taylor, a organização de Fayol, a burocracia denunciada por Weber ou o informalismo de Etzioni, a qualidade no pensamento de Deming e do Toyotismo, a objetividade de Drucker, a revolução desejada pela reengenharia ou o atual virtualismo que ofereceram a todos os arranjos da força humana um molde e, fundamentalmente, um “pensar” cujos resultados são largamente favoráveis à espécie humana de uma forma, em geral, e aos management, em particular, nova função nestes novos tempos.
O “pensar” da administração aplicado às organizações proporciona ao homem suas maiores conquistas na Terra, no espaço sideral e no mar. Assim, são frutos deste pensar um chip até uma nave espacial ou um submarino atômico, bem como comportamentos e formas de ver o mundo, as coisas e as pessoas. Por outro lado, os descaminhos e descompassos ocasionados na biodiversidade são alguns dos frutos amargos que estamos colhendo.
Desse modo, aparece um outro pensar aplicável na organização: a visão holística na medida que instiga uma administração plena que envolve toda a empresa e suas relações externas. A relação da empresa com o meio ambiente identifica-se com uma postura holística na administração, em geral, e nas tomadas de decisão, em particular. Percebe-se também o conceito alternativo de shareholder (acionista) para stakeholder (pessoas que estão associadas direta ou indiretamente à organização ou que sofrem alguma de suas ações).

A Espécie Humana e a Natureza

“A verdadeira virtude é ficar dentro do que é adequado.”
Theages

Fotos de satélite mostram a destruição das florestas, da água e da terra. Os 6 bilhões de habitantes do planeta despejam na natureza 30 bilhões de toneladas de lixo por ano. Só no ano de 2000, liberamos na atmosfera sete bilhões de toneladas de dióxido de carbono. A cada três meses, desperdiçamos alumínio suficiente para reconstrução da frota mundial de aviões e navios e uma árvore de 15 anos pode produzir 700 sacos de supermercado. O Brasil, por sua vez, destruiu 93% da Mata Atlântica, 50% do cerrado e 15% da Floresta Amazônica. Estes estudos assustam cada vez mais a espécie humana que pensa no futuro das próximas gerações, no ar que respiramos, na disponibilidade de água potável e na diversidade de seres vivos.
Por sua vez, a natureza responde às mudanças que lhe são impostas. Esta resposta, porém, nem sempre é a melhor para a espécie humana. John Muir (1838-1914) e Aldo Leopold (1886-1948), por exemplo, entendiam que o ser humano pertence à natureza e não contrário (Bateman & Snell; 1998).
A recuperação de áreas desmatadas, de rios destruídos e mares poluídos é possível. No entanto, nem sempre as novas condições que a natureza apresenta são adequadas à sobrevivência humana. Parece que a natureza, de uma maneira ou de outra, não se destrói tão facilmente. É possível supor que uma região sofra diminuição de área verde e habitável, passando a ter um clima semi-árido e condições de habitação piores e mais caras que antes. Para a espécie humana, isso passa a ser um problema, mas, para a natureza trata-se apenas de uma transformação, de uma adaptação às exigências impostas. A natureza continua viva. É claro que, com menor diversidade, mas, continua apta a tornar-se próspera com o tempo. Aliás, as alterações climáticas e as respostas de vida durante milhões de anos demonstram que quem precisa preocupar-se é muito mais a espécie humana do que o conjunto de flora e fauna (Hipótese Gaia).

As Correntes sobre Responsabilidade Social

“Os malefícios de ações mal planejadas nas atividades econômicas são maiores que os benefícios.”
George Perkins Marsh

A Responsabilidade Social apresenta três correntes (Montana & Charnov, 1999; Hampton; 1990; Drucker, 1981 e 1998; Bateman & Snell, 1998).
A primeira é liderada pelo economista conservador e ganhador do prêmio Nobel Milton Friedman. Para ele, a responsabilidade da empresa consiste em usar os recursos de tal forma que proporcione rendimentos a seus acionistas; ou seja, a procura por lucro, organização eficaz e bem planejada, articulando seus recursos dentro das leis e das regras do jogo capitalista que caracterizam uma empresa que atinge sua responsabilidade social. Ainda, segundo o economista, os administradores não cumprem corretamente suas atribuições quando utilizam o dinheiro da empresa para doações a projetos sociais, ambientais ou culturais.
Friedman argumenta que a prática de responsabilidade social, além das características estabelecidas por ele, não funcionaria. Isto ocorreria, segundo o economista, por três razões: estas responsabilidades seriam a principal função do Estado; a empresa precisa medir resultados e a mensuração em projetos sociais é difícil (muitas vezes, a estrutura desses projetos entra em conflito com a das organizações); os executivos não têm conhecimentos que validem estratégias de interesse social.
A segunda corrente defende ações de responsabilidade social pelas empresas. Keith Davis aponta que as empresas detêm um forte poder na sociedade e, por isso, além de atingirem um desempenho econômico satisfatório, devem contribuir na solução dos problemas sociais direta ou indiretamente relacionados à empresa. A organização para obter lucro relaciona-se não só com mercado consumidor, investidor, fornecedor, mas também atinge comunidades. Portanto, o sucesso econômico estaria também nos benefícios sociais.
Davis argumenta que, teoricamente, pesa a favor da responsabilidade social das empresas quatro fatores: as melhorias das condições da sociedade que beneficiam a própria empresa; as ações sociais, também, podem evitar que pequenos problemas tornem-se grandes problemas à comunidade e para a empresa; ações sociais são características de uma preocupação ética ou, pelo menos, uma busca “acertada” de se fazer as coisas; por fim, a ação social é uma prática bem aceita no ponto de vista religioso.
As duas correntes apresentadas defendem que os aspectos legais devem ser respeitados. Ressalta-se, porém, que a primeira corrente atribui à empresa apenas os limites das obrigações sociais e a segunda aumenta a abrangência para a responsabilidade social.
A terceira corrente defende uma abrangência ainda maior, a “sensibilidade social”, ou seja, a empresa não se limita aos objetivos financeiros e sociais, mas precisa antecipar-se aos problemas sociais e lhes oferecer respostas (Montana & Charnov, 1999).

Histórico: Responsabilidade Social Empresarial e o Meio Ambiente

“Acima de tudo não causar mal conscientemente.”
Hipócrates

Os movimentos por responsabilidade social empresarial têm crescido de modo marcante. Pode-se apontar a falência do Estado Social, o aumento da consciência ética, a ausência de desenvolvimento, o agravamento da exclusão social e a degradação do meio ambiente como fatores que os influenciaram.
A repercussão dos movimentos pela responsabilidade social fortalece o terceiro setor (o primeiro setor é representado pelo Estado, o segundo, pelo mercado).
A responsabilidade social organizacional abrange um conjunto de ações que vão desde o ambiente interno até os negócios com fornecedores do outro lado do mundo. Para o Instituto Ethos, a responsabilidade social abrange os seguintes elementos: público interno, transparência, meio ambiente, fornecedores, consumidores, comunidade e governo/sociedade. Portanto, o meio ambiente é um dos fatores de responsabilidade social das empresas.
A responsabilidade social da organização é percebida por intermédio de uma ação consciente do management de investir em ações sociais. Diferente da filantropia, que se associa à caridade ou ao assistencialismo, uma empresa pode ser considerada como cidadã empresarial quando suas ações e repercussões estiverem fundamentadas na ética.
Na organização, o voluntário também deve ser considerado. Este é o cidadão que, motivado por princípios e valores morais, éticos, ideológicos ou religiosos doa seu tempo espontaneamente a uma ação de solidariedade e participação efetiva, não remunerada e sem trocas materiais para causas de interesse comunitário ou social. Um programa de voluntariado empresarial é o que apóia os funcionários que desejem ser voluntários.
Destacam-se, cronologicamente, alguns acontecimentos a favor da responsabilidade social das empresas e percebem como são contínuos e, a cada fase, são mais abrangentes. Em 1929, na Alemanha, foi apresentada a idéia de propriedade social, mas só, em 1960, começam os primeiros movimentos pela responsabilidade social das organizações nos Estados Unidos. A ONU, em 1971, preocupa-se em pesquisar as conseqüências das multinacionais nos países em desenvolvimento, em 1972, a Singer publica o primeiro balanço social. De 1972 a 1976, institutos como a FIDES e ADCE (Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas) estudam modelos de balanço social. Estes estudos estendem-se também pela Europa e EUA.
Em 1977, a França obriga (Lei nº 77.769/77) a publicação do balanço social (com enfoque nas relações de trabalho). Em 1984, a Nitrofertil apresenta o primeiro Balanço Social Brasileiro. Em 1985, é a vez de Portugal pela da Lei nº 141/85 obrigar as empresas com mais de 100 funcionários a publicarem Balanços Sociais. No Brasil, em 1998, Porto Alegre cria o Balanço Social para as empresas do município (Lei nº 8.116/98).
Entre 1986 e 1990, vários movimentos na Europa e nos Estados Unidos procuram caminhos e planos para as empresas no que se refere à sua responsabilidade social.
No Brasil, em 1992, a FGV funda o Centro de Estudos de Ética e Negócios, e a ECO 92 gera a Agenda 21, que visa a mudança de padrões de desenvolvimento para os países. Em 1997, o Protocolo de Kyoto, preocupado com o clima, defende a redução de 5,2% dos gases do efeito estufa nos próximos 11 anos.
Neste mesmo ano, Herbert de Souza (Betinho) e o IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) propõem um modelo de publicação de Balanço Social.
Em 2001, o Instituto Ethos elabora seu guia e surge um movimento de âmbito mundial para a padronização dos Balanços Sociais GRI (Global Reporting Initiave). Em 1997, é criada a norma de certificação para condições de trabalho SA8000. Em 1999, os EUA passam a determinar a sustentabilidade das empresas a partir de critérios econômicos, sociais e ambientais (Ethos, 2001).

A Natureza e a Empresa: a Mudança de um Paradigma

“O que é, exatamente por ser tal como é, não vai ficar tal como está.”
Bertolt Brecht

A visão de mundo, centralizada nas relações ordenadas de causa e efeito, está no centro do pensamento do século XVIII até o século XX.
A busca pela ordem e uniformidade, bem como a visão mecanicista do mundo coincidiram com a revolução industrial e o despertar do conhecimento da Administração.
Desse modo, o paradigma reducionista influenciou as transformações e ações humanas de toda essa época. Algumas das conseqüências do pensamento cartesiano-newtoniano são a busca de objetividade, o determinismo mecanicista, a valorização da razão e a exigência metodológica que repercutem na necessidade de mensuração e quantificação e em uma concepção da natureza como fornecedora natural das necessidades humanas.
A era industrial promoveu o desenvolvimento de empresas nas áreas de transformação de matéria-prima extraída da natureza em produtos acabados. Materiais como zinco, cobre, petróleo e madeira foram usados durante anos sem a preocupação das conseqüências do uso intensivo desses produtos. O paradigma da época favorecia a não preocupação de eventuais impactos ambientais. A fartura que a natureza nos proporcionou talvez tenha facilitado este descaso. O crescimento econômico e a riqueza vindos da exploração desses recursos afastaram os interesses em investir em pesquisas de avaliação de impacto ambiental. Além disso, o contexto de meados do século XIX até a década de 1960 inclui duas Guerras Mundiais, uma grande recessão, a guerra fria, a guerra nas estrelas, o pleno emprego, o crescimento seguro das organizações e o sucesso dos trabalhadores tanto nas perspectivas profissionais como nos ganhos de direitos trabalhistas.
A partir da década de 1960 algumas mudanças começam a surgir. O ambiente organizacional tornar-se cada vez mais complexo. As empresas e seus trabalhadores já não tinham tanta certeza do sucesso. Os ganhos adquiridos pelo trabalhador foram aos poucos cedendo espaço aos novos modelos de gestão. A tecnologia difundiu-se e começou a servir a inúmeros interessados da sociedade. Modificam-se o trabalho e o mercado de trabalho. Na Alemanha, por exemplo, os desempregados apresentam uma nova característica: são homens, entre 24 e 45 anos, formados em nível superior, aptos a trabalhar, bem qualificados, porém, sem emprego. Esta massa começou a se mobilizar e a criar movimentos ambientalistas. O partido verde alemão e o Greenpeace são exemplos marcantes da força que estes movimentos exercem no mundo globalizado.
Não só o ambiente organizacional como também a informação e os estudos sobre meio ambiente, seu impacto no planeta e sua relação com a cadeia produtiva intensificam-se. O efeito estufa, a prevenção com a extinção de espécies vegetais e animais, a preservação de santuários ecológicos e os perigos dos resíduos nucleares foram algumas das preocupações iniciais dos ambientalistas que, se antes foram chamados de loucos por dirigentes, hoje são respeitados e contam com grande apoio da opinião pública. Suas ações podem representar uma grande preocupação para as empresas despreparadas ou uma oportunidade para as empresas atentas às novas exigências da sociedade adequarem-se ao consumidor.
A questão que se coloca é: será que começa a surgir um outro paradigma ou seriam movimentos isolados ou, ainda, algum modismo?
A relação empresa-natureza rompeu a fronteira da utilização de matérias-primas. Os produtos e seus reflexos no meio ambiente também passaram a fazer parte de análises e medidas para reestabelecer um resultado positivo entre organizações e natureza. A reciclagem vem como resposta ao tempo de decomposição que a natureza leva para determinados produtos; por exemplo, para chiclete 5 anos, para plástico mais de 100, para latas de alumínio 1.000 anos e para vidro mais de 10.000 anos.
No Brasil, o lixo é formado por 3% de vidro, 3% de plástico, 4% de metal, 25% de papel e 65% de lixo orgânico e 76% deste lixo destina-se aos lixões e 1% a tratamento (Filho, 2000). Cada tonelada de papel reciclável economiza cerca de 20 árvores adultas e 71% de energia em relação à produção de papel primário. No caso do vidro não há nenhuma perda do material primário em relação ao reciclável; assim, 10 quilos de vidro usado resultam em 10 quilos de vidro novo. A economia de energia chega a 13%. No caso de metais, cada tonelada de alumínio reciclado evita a retirada de 5 toneladas de bauxita, economizando 95% de energia. Todo plástico usado pode ser usado em algo novo (Martin, 2000).
O movimento ecológico proporcionou o surgimento da chamada indústria do verde como a indústria de reciclagem, economia de energia (produtos e ações), produtos naturais, desenvolvimento de energia alternativa não-poluente, educação ambiental e o ecoturismo (Bennett, 1992).
Cartilhas sobre meio ambiente e empresa encontram espaço na mídia e no meio acadêmico em função da busca de alternativas para este novo desafio. Seguem três modelos destas cartilhas que oferecem elementos de reflexão, ainda que primários, de como as empresas podem trabalhar em harmonia com o meio ambiente.

  • Reduzir/eliminar emissão de poluentes que causam prejuízos ao meio ambiente.
  • Manter os recursos não renováveis.
  • Minimizar os resíduos tóxicos, bem como transportá-los de forma adequada.
  • Maximizar o uso de energia produzida por fontes ambientalmente seguras.
  • Oferecer produtos que reduzam o impacto ambiental.
  • Acatar a parcela de responsabilidade frente a danos causados na natureza.
  • Divulgar os acidentes ambientais, os riscos à saúde e à segurança dos trabalhadores e da sociedade.
  • Criar a função de diretores ambientais, bem como de auditorias”.

Fonte: Bateman & Snell: 1998, 165.

Os chamados Produtos Verdes ou Ecoprodutos supõem:

  1. reduzido consumo de matérias-primas e elevado índice de conteúdo reciclável;
  2. produção não-poluidora e materiais não-tóxicos;
  3. não realização de testes desnecessários com animais e cobaias;
  4. não produção de impacto negativo ou de danos a espécies em extinção;
  5. baixo consumo de energia durante a produção, a distribuição, o uso e a disposição dos resíduos;
  6. embalagem mínima ou nula;
  7. possibilidade de reutilização ou reabastecimento;
  8. período longo de uso, permitindo atualizações;
  9. possibilidade de coleta ou desmontagem após o uso;
  10. possibilidade de “remanufatura” ou reutilização”.
Fonte: Gazeta Mercantil. Gestão Ambiental, fascículo 8, 08/05/96.

Os 8-Rs do Meio Ambiente

  • Recicle: faça coleta seletiva de plásticos, metais, papéis
  • Reutilize: desenvolva outros fins daquilo que já foi usado
  • Reinvente: produtos, processos, serviços
  • Recompense: valorize todos os esforços referentes ao meio ambiente
  • Receba: benefícios de suas ações
  • Respeite: o meio ambiente, o próximo a si mesmo
  • Responda: não deixe de explanar sobre as dúvidas do meio ambiente
  • Reduza: o lixo e o desperdício”
Fonte: Banas Ambiental e www.montandonedias.com.br em 12/06/2001 ano II, nº 12.

Florescem também dois movimentos empresariais: a ISO e o SGA. A implementação da série ISO 14000, prescreve que a empresa seja organizada e administrada na e para a constante preservação ambiental, bem como o Sistema de Gestão Ambiental (SGA) que são interessantes ações de gestão das empresas amigas da natureza (Andrade et all, 2000).

As Vantagens Competitivas da Empresa “Amiga da Natureza”

“Compreender a mudança organizacional requer descobrir as conexões entre o aparentemente prosaico e o aparentemente poético na vida organizacional.”
James G. March

Os movimentos a favor da responsabilidade social das empresas, a pressão da opinião pública, dos governos, dos consumidores e investidores moldaram novas estratégias competitivas para as empresas. Somam-se ao contexto de complexidade do mundo organizacional na era da globalização financeira intensiva. A demanda passa a ser por um pensamento não-linear para o entendimento e busca de soluções. A solução de novos problemas fundamentada nas velhas raízes (formas de pensar) deixa de surtir efeito. As variáveis aumentam, como também amplia-se sua interdependência com rápidas mudanças.
O pacote “salve o meio ambiente” é uma destas variáveis. O “respeito à natureza” tomou vulto em várias partes do mundo. A conscientização extrapolou a esfera dos ambientalistas e germinou em crianças, adolescentes, políticos, trabalhadores e, em especial, consumidores e investidores.
Holandeses, dinamarqueses, alemães e japoneses estão entre os mais conscientes com referência ao desenvolvimento e venda de produtos que não agridam a natureza. Estes produtos têm seus selos de identificação. Na Alemanha, o programa “Anjo Azul” existe desde 1978. Os programas ecológicos do Japão e do Canadá basearam-se no programa alemão.
Os setores industriais que poluem não encontram espaço para instalar suas fábricas, mesmo prometendo contratação de mão de obra e pagamentos de impostos nos países conscientes ecologicamente. Mesmo que o administrador elabore projeto de investimento em uma fábrica poluente, e o conseguirá, pelo menos por enquanto, em países como a Polônia e a Hungria, corre o risco de não conseguir vender seus produtos nos demais mercados.
No Brasil a Ford, por exemplo, investe quase 1,2 bilhões de dólares para montar uma fábrica totalmente ecológica em Camaçari, Bahia. A Ecovias, empresa que cuida do sistema Anchieta-Imigrantes, tem como desafio a construção de uma nova estrada preservando o Parque Ecológico da Serra do Mar, patrimônio histórico da humanidade (Torres, 2001).
Os movimentos ambientalistas têm tido considerável efeito nas empresas que se mostram nas negociações e nas exigências da ISO, nas auditorias que comprovem ações na defesa da natureza e em prêmios como o Prêmio Top de Ecologia, o Prêmio Henry Ford de Conservação Ambiental, o Prêmio Instituto Ethos e o Prêmio Ambiental von Martius. Participar destes prêmios expõe a marca da empresa na mídia, além de proporcionar instantes de um favorável clima organizacional.
O movimento empresarial em prol de causas ambientais, além de outras ligadas à responsabilidade social aparece no meio empresarial por motivos de consciência e cidadania, mas também difunde-se e rapidamente se impõe porque a ausência de estratégias relacionadas ao meio ambiente pode provocar danos financeiros e de produtividade, tais como: multas, processos judiciais, acidentes ambientais e a trabalhadores. Por outro lado, a inclusão de estratégias ambientais aumenta as vantagens competitivas da empresa, tais como:

  1. redução de custos: programas de melhoria ambiental e prevenção de risco, por exemplo, proporcionam ganho financeiro na medida que os desperdícios são minimizados e problemas financeiros com a justiça, com os trabalhadores, ou ainda, com seguros são reduzidos. Aumenta ainda a possibilidade de conseguir financiamento com taxas reduzidas;
  2. aumento de investidores: mostrar a eficácia da empresa no que se refere a este novo campo de ação, atrai novos investimentos ou, pelo menos, contribui para que se evitem retiradas financeiras;
  3. aumento de consumidores: oferecer produtos ecologicamente corretos, tende a proporcionar aumento nas vendas e na imagem da empresa, criando novos nichos de consumo; demonstrar que a empresa é responsável socialmente pode garantir ganhos no valor da marca;
  4. mercado internacional: a entrada em mercados internacionais só ocorre mediante a comprovação do respeito às leis ambientais de toda cadeia produtiva até a reciclagem do produto final;
  5. clima organizacional: medidas preventivas e ações estratégicas que visam a preservação do meio ambiente podem resultar em um clima satisfatório entre os trabalhadores.

A Tomada de Decisão Empresarial: Fotografia

“Quando nasce, o homem é fraco e flexível. Quando morre, é forte e rígido. A firmeza e resistência são sinais de morte. A fraqueza e flexibilidade, manifestações de vida.”
Lao Tsé

No Brasil, pesquisas sobre o comportamento do consumidor frente a questão de Responsabilidade Social começam a surgir. Assim a realizada pelo Instituto Ethos sobre “Percepção e Tendências do consumidor Brasileiro”, em 2000, que mostrou que 63,0% pensaram em não consumir produtos de empresas não socialmente responsáveis e 27,0% dos entrevistados, estariam estimulados à compra de produtos de empresas que adotem práticas de combate à poluição.
Esta investigação demonstra que a questão ambiental não é a mais importante aos brasileiros. O meio ambiente fica em quarto lugar, perdendo para a admissão de portadores de deficiência física (46,0%), investimento em escolas, postos de saúde e entidades sociais (43,0%) e manutenção de programas de alfabetização para funcionários e familiares (32,0%).
O estudo também identificou a responsabilidade do governo e das empresas sobre os itens pesquisados. Assim, 24,0% dos entrevistados atribuíram que limpar o meio ambiente e preservar os recursos naturais é de responsabilidade das empresas, ficando o governo com 39,0%. Dos demais itens pesquisados, o meio ambiente é o de maior porcentual atribuída às lideranças empresariais. O outro item proposto foi progredir economicamente e aumentar o nível de emprego, que ficou com 73,0% para o governo e 16,0% às empresas, e em terceiro lugar em relevância para as lideranças empresariais, com 11,0%, a melhora nos cuidados com a saúde e a cura de doenças.

Considerações Finais

A mundialização e sua complexidade alteraram a concepção do mundo e dos negócios. Desde a concepção do produto até o pós-venda, há necessidade de promover e investir em pesquisas alternativas sobre o uso de recursos naturais de forma mais interativa com nossas necessidades como seres humanos e com as condições consideradas adequadas ao planeta como um todo.
O meio ambiente, como “meio”, favorece às condições para a vida e para os negócios. “Por inteiro”, manifesta-se nas relações e interações entre os seres vivos e a natureza, cria novos seres, restabelece antigas estruturas, modifica as figuras internas de seu núcleo e ressurge, constantemente, nas diversas manifestações de suas figuras externas. Percebe-se que, agilmente, a natureza muda sem alterar e transforma sem destruir. Cabe aos arranjos humanos conceberem ações que se alinhem sob esta ótica peculiar.

Bibliografia

Introdução à Administração. 3ª ed. São Paulo: Pioneira, 1998.
AGUIAR, Maria Aparecida Ferreira. Psicologia aplicada à Administração: globalização, pensamento complexo, teoria crítica e a questão ética nas organizações. 2ª ed., São Paulo: Excellus, 2000.
ANDRADE, Rui Otávio B; TACHIZAWA, Takeshy; CARVALHO, Ana Barreiros. Gestão Ambiental: enfoque aplicado ao desenvolvimento sustentável. São Paulo: Makron Books, 2000.
BANAS Ambiental. Artigo: “Os destaques em gestão ambiental de 2000”. Ano II, nº 10, fevereiro de 2001, p. 28-45.
BANAS Ambiental. “Seção – quadrinhos”. Ano II, nº 12, junho de 2001, p. 54.
BANAS Ambiental. Artigo: “Gestão Ambiental aumenta a competitividade empresarial”. Ano I, nº 5, abril de 2000, p. 26-46.
BATEMAN, Thomas S., SNELL, Scott. A Administração: construindo vantagem competitiva. São Paulo: Atlas, 1998.
BENNETT, Steven J. Ecoempreendedor: oportunidade de negócios decorrentes da revolução ambiental. São Paulo: Makron Books, 1992.
BORGES, Cecília. “Recicle: a natureza agradece”. Revista Banas Ambiental. Ano 1, nº 3, dezembro de 1999, p. 32-7.
DRUCKER, Peter F. “Fator humano e desempenho”: in: O melhor de Peter Drucker sobre Administração. São Paulo: Pioneira, 1981.
FILHO, Hayrton Rodrigues do Prado. Plásticos: “O esforço para a sua integração ambiental”. Revista Banas Qualidade. Ano 1, nº 6, junho de 2000, p. 18-23.
GAZETA MERCANTIL. Gestão Ambiental, fascículo 8, 08/05/96.
Guia de Elaboração de Relatório e Balanço Anual de Responsabilidade Social Empresarial. Versão 2001. Instituto Ethos.
HAMPTON, David R. Administração: processos administrativos. São Paulo: McGraw-Hill, 1990.
LANNES, Vidal. “Tecnologia combate poluição do ar”. Revista Banas Ambiental. Ano 1, nº 3, dezembro de 1999, p. 12-9
MARTIN, Eduardo San. “Lixo Urbano: um artigo de luxo no Brasil”. Revista Banas Qualidade. Ano 1, nº 4, fevereiro de 2000, p. 26-31.
MONTANA, Patrick J.; CHARNOV, Bruce, H. Administração. São Paulo: Saraiva, 1999.
OFFE, Claus. Capitalismo desorganizado. 2ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1994.
“Percepção e tendências do Consumidor Brasileiro”. Pesquisa 2000. Instituto Ethos.
RAIBORN, Cecily A, JOYNER Brenda e LOGAN, James W. A “ISO 14000 e o chão-de-fábrica”. Revista Banas Qualidade. Ano 1, nº 6, junho de 2000, p. 12-6.
SOARES, José Marcos e LOUREIRO, Reginaldo Vello. “Identifique o valor dos recursos ambientais”. Revista Banas Ambiental. Ano 1, nº 5, abril de 2000, p. 50-2
TORRES, Carmen Lígia. “Imigrantes vira desafio para Ecovias” e “Ford investe US$ 1,2 bi para construir fábrica ecológica em Camaçari”. Jornal Valor, Caderno Especial Empresa e Comunidade, p. F5, 12/07/2001.
www.ambiental.com.br – Educação ambiental, consultoria, ISO 14000.
www.cempre.ambiental.com.br – Compromisso ambiental para a reciclagem.
www.ethos.org.br – Instituto de Responsabilidade Social Empresarial.
www.montandonedias.com.br – Comunicação para qualidade.
www.socioambiental.org.br – instituto sócio ambiental.

RAFI on-line

Revista de Administração da Faculdade de Administração de Empresas do Estado de São Paulo- FAESP

Rua Vitorino Carmilo, 644 - Campos Eliseos - São Paulo - SP - CEP 01153-000

http://www.faesp.br/rafi  -  rafi@faesp.br

Fone: (0xx11) 3661-5400


Copyright © 2007 FAESP. Todos os direitos reservados.

Os artigos assinados são de total e exclusiva responsabilidade dos seus autores.

É permitida a publicação de trechos de artigos desde que identificada corretamente a fonte.

Para publicação integral, deve-se contactar diretamente o autor.


* Este número da RAFI on-line é uma reimpressão da RAFI  nº1 - Ano1 - 2003 (ISSN 1678-6289)


Creative Commons License

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.