
Bacharel
pela FEA USP. Professor da Fundação Getúlio Vargas/SP.
RCC – A sensação que se tem, não só na profissão de Administração, é de que existe um excesso de oferta de profissionais. Isso gera até uma certa preocupação, porque se analisarmos os portadores de diploma, realmente, haverá um excesso. Mas, por outro lado, o que há também é a escassez de pessoas com boa formação. O que temos notado é que todos os profissionais que têm boa formação encontram facilmente colocação no mercado e até, de certa forma, ele é um pouco disputado pelo mercado.
Por outro lado, necessita mudar e vai mudar, gradualmente, a preocupação do aluno em apenas ter um diploma e acreditar que já tem o passaporte para seu sucesso profissional. Antigamente, em razão da escassez no mercado, isso era verdade.
A grande São Paulo realmente é um grande empregador. Nós, como profissionais, temos a tendência de achar que as grandes oportunidades estão nos grandes centros, mas, muitas vezes, temos excelentes oportunidades no interior (sem dúvida, a segunda renda per capita). Alguns locais, praticamente, não conhecem crises. Há campo para profissionais de Administração no interior de São Paulo e por que não dizer em todo o Brasil. Ainda há muito por ser feito.
Por outro lado, por que apenas pensar no lado profissional e esquecer a qualidade de vida. Hoje, São Paulo oferece excelentes oportunidades, mas péssima qualidade de vida. Isso precisa ser pesado. Em outras cidades, há excelentes oportunidades, provavelmente não com uma remuneração no mesmo patamar de São Paulo. Mas, comparando o custo que se tem e uma variável intangível que é a chamada qualidade de vida, o administrador realmente sai ganhando: menos trânsito, menos violência, os filhos têm melhores escolas, convívio social... Então, o profissional encontra um campo muito vasto para poder se desenvolver.
RCC – Vou separar dois nichos, duas grandes divisões, o administrador na área privada e na área pública.
Eu diria que há uma carência muito grande de profissionais na área pública. Logicamente, que sua contribuição, nesse contexto, tem muito a oferecer. É pena que o setor público ainda não esteja absorvendo bons profissionais. Pelo fato de não existir um plano de carreira, nem incentivo, os conhecimentos que o administrador pode proporcionar no setor público não são aproveitados, tanto em âmbito municipal como estadual e federal.
No setor privado, o que tem ocorrido? Nós sabemos que, no passado, o sonho de todos (o meu também) era ser chefe de departamento de uma grande empresa, porque como empregados, observávamos que o chefe gozava de uma série de vantagens, ou seja, um emprego com certo nível.
Hoje, fala-se que o emprego está em um processo de extinção. Com o processo de automação – isso em todos os níveis: industrial, setor de serviços, setor público etc., etc., – o número de empregos cada vez mais foi reduzindo-se e a oferta aumentando. Na verdade, as escolas terão de mudar o enfoque. Elas ainda preparam o aluno para ser empregado. Quando deveriam, também, despertar o espírito de empreendedores, para partirem autonomamente para um negócio próprio ou uma cooperativa.
Um outro aspecto que se encaixaria aqui também é a posição do administrador em relação ao mercado de trabalho.
O mercado é extremamente promissor. De maneira geral, todas as profissões estão sofrendo dificuldades. No entanto se analisarmos em termos relativos, o administrador leva vantagem em época de crise. Para sair da crise, é preciso estruturar-se. Independente da área, você necessita organizar-se. Se for em época de crescimento, pujança, você também tem de se organizar para acompanhar o crescimento, o desenvolvimento da organização. Mas, o que esta acontecendo? Eu tenho certeza, de que haverá uma mudança total. O estudante está sempre se preocupando, desejando uma grande empresa, como eu desejava. Quando a realidade da nossa e das outras economias do mundo são as pequenas e médias empresas. Então, nós temos 97,6% das organizações, um mercado violentíssimo, que poderá dar ocupação para administradores. É um campo vastíssimo que ele terá, aliado ao fato de que hoje já há uma conscientização de que algumas empresas familiares, capitalistas, estão passando para uma empresa profissional. Essa consciência está cada vez mais forte. Tenho certeza de que esse campo abrir-se-á para o administrador.
Em relação a isso, qual é o comportamento? Um viés que se encontra ainda hoje? Será um generalista ou um especialista? Normalmente, a tendência em um ambiente global é de se optar por ser um especialista, e isso é um perigo muito grande. O próprio aluno quando pensa: “Eu sou de Marketing, então, Finanças não é da minha área”, passa a um erro violento, porque o local em termos de emprego para o especialista é cada vez menor; e mesmo ele sendo um especialista, obviamente vai atuar nas grandes organizações. Como eu disse, quem vai oferecer um nível de emprego maior serão as pequenas e médias empresas. Não vão ter condições de absorver um especialista, e sim, um generalista, que conhece tudo. E as organizações vão se achatando, vão eliminando os níveis hierárquicos e as decisões são cada vez mais horizontais. Então, as escolas precisam formar um profissional mais generalista, pois seu mercado será composto das pequenas e médias empresas.
RCC – Na verdade, não sugeriria um curso especifico, mas, um comportamento em relação à sua formação.
O estudante da minha época se formava, recebia um diploma e era praticamente um produto acabado. Você já podia executar o que aprendeu e obter resultados. Hoje, em razão da globalização e do crescimento das organizações e aumento de sua complexidade, o aluno sai da escola (isso em todas as profissões, especialmente, na Administração) e não é um produto acabado, e sim, produto em elaboração.
O aluno sai em uma fase de processo, muitos conceitos já não valem, surgiram novos, mudaram as técnicas. A velocidade do conhecimento está de tal ordem que não dá para ele em quatro anos estar completo, além da falta de maturidade. Uma coisa é certa, hoje, o profissional deve estar eternamente aprendendo. Até pouco tempo atrás, poucos tinham pós-graduação, hoje, é parte fundamental da formação, além de MBA, mestrado e doutorado.
Além disso, essa conscientização de treinamento é tão forte hoje que você tem um treinamento por meio das empresas. Precisa ter sua formação acadêmica e, paralelamente, a acadêmica, pela empresa ou por iniciativa própria, deve ter também uma formação específica que a empresa vai exigir dele ou vai propiciar-lhe.
Não invejo os jovens, hoje, porque o desafio deles como profissional é o de se manter em um processo de eterna atualização.
Não sugiro que façam determinado curso, mas que façam tudo que for agregar valor à sua formação. Isso é importante!
RCC – Nós fizemos uma pesquisa que vem ao encontro desta pergunta: o que o mercado deseja do profissional de Administração?
Esta é uma pesquisa em nível nacional. Uma coisa é ver a árvore, o bosque. Outra é ver a floresta, onde está inserido seu contexto.
A visão globalizada demanda os conhecimentos sistêmicos da empresa, que é a horizontalização, daí o papel do generalista, tentar conhecer todas as áreas com as quais interage.
Um aspecto muito importante que se dá valor hoje, até por uma questão de mercado, de relação entre oferta e procura, de motivação e de criatividade é: espera-se do profissional, hoje, que ele esteja em primeiro lugar motivado, que ele faça aquilo por amor, com prazer; em segundo, vem a criatividade. Não dá mais para se executar a mesma tarefa sempre da mesma forma, é preciso ir além.
Uma maneira simples de se medir motivação é quando se acorda de manhã com ânimo para o dia. Isso é fundamental no comportamento dos profissionais de hoje.
Outro ponto importantíssimo, que entra na teoria do conhecimento, é o fato de difundir o conhecimento, e não guardá-lo para si. É preciso compartilhar o conhecimento até com seu concorrente. Por incrível que pareça, quando você compartilha seu conhecimento com outros que detêm outra parte do conhecimento, os dois crescem, mesmo com a crítica. Aquele que fica enclausurado, começa a decair. Com isso, é importante trabalhar em equipe, de forma multidisciplinar. A diversidade é o ambiente mais propício para o crescimento.
Nós temos aqui grupos de trabalho das mais diferentes áreas para desenvolver: teletrabalho e mediação, arbitragem, administração esportiva, cultural, responsabilidade social. Mas, convidamos profissionais. Temos a sabedoria de aceitar quem tiver interesse e contribuição, então, temos diversas áreas, psicólogos, médicos, advogados... e até um restaurador de artes, uma maravilha, porque todos falam, entendem-se e isso enriquece a todos.
RCC – Eu acho o campo de arbitragem empresarial muito grande. Realmente, arbitragem, uma lei de 96 que tem objetivo descongestionar o judiciário e acelerá-lo. No mundo de hoje, as coisas vão a toque de caixa.
Com relação aos outros países, como no caso do Mercosul que precisa resolver seus problemas por meio da arbitragem, há um campo muito grande para o administrador. Na área de marketing e de recursos humanos entra a parte trabalhista, pois nós temos um judiciário trabalhista enorme e lento.
Todas as áreas têm problemas e isso viria para acelerar. Com relação à arbitragem, o Brasil tem dois aspectos que estão acontecendo: nós temos a lei, o que é muito bom. Ela foi até contestada pelos advogados, porque não tem efeito recursal. Não é mais possível se ganhar tempo. No entanto, o Tribunal Superior manteve isso. E assim, a lei foi fortalecida, o que é muito positivo.
Então, existe um mecanismo legal de seu funcionamento, existe essa preparação dos profissionais para que possam se ofertar, o que é positivo, mas ainda, o que falta é o lado de mercado, a sociedade despertar para seu uso. Nós não nos habituamos ainda a utilizar a arbitragem, mas ela tem tudo para decolar, precisa popularizar.
RCC – No mercado de trabalho globalizado o profissional de administração precisa preparar-se. Aliás, um fato curioso, sabemos que o Brasil agora está despertando para uma consciência de exportação, mas, por que o brasileiro não tem o espírito de exportação? Talvez uma razão para isso seja o fato de ser um país continente. Por isso, vender para Aracaju torna-se quase uma exportação, em termos de logística, distribuição, contatos, transporte. Então, ele já tem um problema, enquanto nos países pequenos, sobretudo os europeus, se você viajar três horas de trem, você atravessa três, quatro países. As distâncias são menores e as interligações bem maiores, mas, isso está se vencendo, o Brasil está começando a criar essa conscientização. O que é importante é esse espírito com os olhos voltados para fora e, conseqüentemente, hoje, as empresas mundiais estão rompendo as barreiras.
Eu me lembro que, quando viajávamos para fora, o brasileiro comprava tudo (sede de comprar tudo) e muitos outros povos não entendiam isso, mas as barreiras estavam fechadas. Se você precisava comprar um par de tênis ou uma camisa, tinha dificuldades de encontrá-los no Brasil. Hoje, essas barreiras estão rompidas, por outro lado, esses padrões, esses conceitos de administração com a globalização tornaram-se universais. Logo, necessariamente, o administrador precisa adaptar-se a essas novas regras do comportamento do jogo empresarial. Ele tem de adaptar-se.
RCC – É quase uma recomendação, isso vale para todas as profissões, especialmente, para administração. É indissociável que o profissional tenha uma formação acadêmica e uma prática. Do casamento entre teoria e prática é que se vai formar um bom profissional.
Muitos estudantes esperam terminar os estudos para trabalhar, acredito que isso está errado, eles deveriam administrar seu tempo para estudar e trabalhar, a vivência profissional é fundamental.
Antigamente perguntava-se: – “Quem é você? – Sou fulano de tal, filho de tal, neto... e tenho diploma tal”. Era educação de salão. Hoje, pergunta-se, – “O que você sabe fazer? – Eu tenho uma formação assim, uma experiência assim”. É outra visão. É desse comportamento que o profissional necessita.
A negociação é fundamental no dia a dia e também para o profissional de Administração, porque você pode ter um projeto maravilhoso tecnicamente, mas se você não tiver uma boa capacidade de negociar, de implantar, não terá resultado.
![]()
Revista de Administração da Faculdade de Administração de Empresas do Estado de São Paulo- FAESP
Rua Vitorino Carmilo, 644 - Campos Eliseos - São Paulo - SP - CEP 01153-000
http://www.faesp.br/rafi - rafi@faesp.br
Fone: (0xx11) 3661-5400
Copyright © 2007 FAESP. Todos os direitos reservados.
Os artigos assinados são de total e exclusiva responsabilidade dos seus autores.
É permitida a publicação de trechos de artigos desde que identificada corretamente a fonte.
Para publicação integral, deve-se contactar diretamente o autor.
Esta
obra está licenciada sob uma
Licença Creative Commons.