Resumo
Pressupõe-se que a linguagem utilizada, bem como a emoção dos sujeitos da aprendizagem, envolvidos nos cursos em ambientes online, podem favorecer as relações e interações nesses ambientes, onde o tipo de Linguagem Emocional utilizada pode contribuir no processo de construção do conhecimento. O uso de uma Linguagem Emocional afetuosa/amorosa, nos cursos de formação de educadores em ambientes online, pode ser considerado um diferencial significativo para a aprendizagem, por criar um espaço operacional mais favorável às inter-relações, à mediação pedagógica e ao desenvolvimento dos processos reflexivos, auxiliando a construção do conhecimento.
Palavras-Chave: Linguagem Emocional; Ambientes de Aprendizagem online, Formação de Educadores.
Abstract
It is presumed that the language employed, as well as the emotion of the ones subject to learning, engaged within courses in Internet environments, may enhance the relations and interactions within these environments, where the kind of Emotional Language employed may contribute for the knowledge construction process.
The employment of an affectionate/loving Emotional Lan-guage within courses on educators’ formation within Internet environment may be considered a significant differential to learning, by creating na operational ambience more favorable to the interrelations, the pedagogical mediation and the development of reflexive processes, helping the knowledge construction
Keywords: Emotional Language; Internet Environments; Formation of Teachers.
Estamos imersos numa sociedade de redes em que o ser humano descobre outras formas de interação manifestas pelo uso de novas tecnologias (Internet e outros).
Veículos de comunicação a distância aparecem disseminando informações, viabilizando a construção e a reconstrução do conhecimento, pela comunicação entre os seres de quase todos os lugares do planeta, com os mais diversos fins.
A linguagem, como meio de interação é fio condutor dessa comunicação e tem sido explorada nas mais diversas formas possíveis nesses ambientes: visuais, orais e escritas. Pessoas encontram-se e reencontram-se, fazendo uso desse veículo. São chats (bate-papos), correios eletrônicos, fóruns de discussão, enfim, ambientes devidamente concebidos para que os indivíduos possam expressar-se, comunicar-se em um processo de interação recursiva.
A digitalização da educação faz com que tal veículo passe a fazer parte dos ambientes de aprendizagem, fala-se agora de educação a distância em ambientes online ou virtuais.
Cursos online surgem na velocidade desejada pela sociedade da informação e, como raios de luz, acompanhamos estes cursos com propostas as mais diferenciadas. Muitos deles, entretanto, propõem a seus participantes apenas materiais, disponibilizados no ambiente, sem a intenção de provocar ou proporcionar qualquer possibilidade de interação entre os sujeitos envolvidos. São cursos que se utilizam da Internet como depósito de materiais apenas, ou ainda, como reprodutores das “antigas” aulas concebidas pela abordagem tradicional de ensino presencial.
Na contramão deste tipo de curso, Valente (2001)2 propõe uma abordagem denominada “estar junto virtual”, que “envolve múltiplas interações no sentido de acompanhar e assessorar constantemente o aprendiz para poder entender o que ele faz e, assim, propor desafios que o auxiliem a atribuir significado ao que está desenvolvendo. Estas interações criam meios para o aprendiz aplicar, transformar e buscar outras informações e, assim, construir novos conhecimentos.”
Propõe-se aqui cursos em ambientes online que promovam a interação, no qual a dialogicidade seja uma das principais fontes de construção, aproximando os seres relacionais e, portanto, do tipo “estar junto virtual”.
Nos ambientes online, a educação deve pautar-se na relação interativa entre os sujeitos envolvidos (professores e alunos) para a construção do conhecimento, considerando os indivíduos em sua totalidade e como seres relacionais em constante transformação.
O processo de “trans” formação do professor está relacionado a mudanças posturais.
Freire (1987), ao apontar a questão da não neutralidade da prática educativa, exige definição, decisão, ruptura, posição, por parte do professor, infere-nos a necessidade de mudanças posturais desse educador e que, possivelmente, só se transformará baseada no desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo desse profissional, articulando os aspectos emocionais com os racionais, como estamos propondo em nossos estudos.
Devemos entender que mudança de postura não envolve apenas o campo profissional, mas o ser por inteiro. Não mudamos nossa postura apenas no trabalho; a mudança envolve discussão mais complexa, por exemplo: nenhum educador consegue desenvolver projetos dentro de uma linha socioconstrutivista se não estiver consumido por inteiro e sobretudo em sua vida pessoal, pelos preceitos nela contidos.
A proposta da formação de professores por meio da informática educacional, via ambientes online, tem auxiliado o processo de transformação da prática de muitos educadores.
O repensar contínuo e coletivo frente a necessidade de mudanças no paradigma atual provoca reflexões relevantes a respeito dos aspectos, como: a abertura ao novo e a tudo que ele proporciona; a percepção dos aprendizes como sujeitos ativos em interação com o meio; a superação da intransponibilidade cultural, temporal, espacial, por meio da aproximação e interação com o outro; o tempo cognitivo, em que o chrónos e o kairós precisam ser vistos/compreendidos por outros olhares, ante a virtualidade. Enfim, questões inumeráveis que se descortinam diante de nossos olhos e revelam a impossibilidade de continuarmos enxergando o mundo de hoje pelas lentes do antigo paradigma.
Essa proposta, porém, não é um fator isolado na formação do professor, e nem tem a pretensão de transformar sozinha a educação ou o professor, mas é interessante notar que o uso dessas tecnologias nos ambientes de aprendizagem tem viabilizado a concretização de situações de igualdade e/ou aproximação cognitiva, entre os sujeitos construtores do conhecimento, professor e aluno que, muitas vezes, apresentavam-se distantes na prática.
Um dos caminhos para esse cultivo está na formação continuada dos professores, mas as condições para isso envolvem fatores diversos e, dentre eles, estão as ferramentas utilizadas para que esse educador se transforme, e esse artigo propõe um olhar para a linguagem emocional.
O conceito afeto à Linguagem Emocional suscita-nos mergulhar no universo que envolve a emoção e a linguagem. Assim, estaremos tecendo conceitos e reflexões que envolvem emoção, razão e linguagem como sustentáculos para uma compreensão mais concisa sobre a Linguagem Emocional.
O estudo das emoções foi, por muito tempo, desprezado pela Ciência. Alguns estudiosos dedicaram-se ao tema somente no final do século XIX e início do XX, mas nunca houve dedicação suficiente para que os estudos se aprofundassem ou continuassem.
A partir da década de 60 do século XX, os estudos dedicados à emoção e sentimentos são retomados e passam a ter um maior aprofundamento depois da década de 1980.
Desse modo, temos hoje um quadro bastante diversificado quanto ao estudo das emoções. A Neurociência, Neuroanatomia, a Biologia, a Psicologia: clínica, social, discursiva e a Ciência Cognitiva, entre outras áreas, têm dedicado seus estudos à emoção.
Devemos ter clareza de nossa condição como seres autopoiéticos,3 ou seja, somos organismos complexos e possuimos mecanismos de auto-organização sistêmico-recursiva, no qual por meio das relações interativas com o meio, com as circunstâncias que nos envolvem, modificamos nossas estruturas e, assim, nos transformamos, preservamos nossa organização e nossa identidade e mantemos a vida.
Como seres autopoiéticos, vivemos em contínua inter-relação com outros seres também autopoiéticos; e é pela dinâmica relacional, pelas conversações viabilizadas pela linguagem que fluem das emoções que emergem desse processo de “con-viver”, que nos reestruturamos, nos transformamos.
Para Damásio (2000:74/75), emoções “... são conjuntos complexos de reações químicas e neurais, formando um padrão; todas as emoções têm algum papel regulador a desempenhar (...) estão ligadas à vida de um organismo (...) e seu papel é auxiliar o organismo a conservar a vida.”
Muitos estudiosos enfatizam a importância das emoções como foco de conservação da vida, aspecto do organismo que deve funcionar harmoniosamente para auxiliar a sobrevivência do ser humano. Explica-se a inter-relação da emoção com a homeostasia; esta última entendida como “reações fisiológicas coordenadas e em grande medida automáticas que são necessárias para manter estáveis os estados internos de um organismo vivo.” ( Damásio, 2000:61)
Segundo Maturana (2001:129), as emoções são “disposições corporais dinâmicas que especificam os domínios de ações nos quais os animais, em geral, e nós seres humanos em particular, operamos num instante.”
Essa dinâmica do emocional funciona como base para toda e qualquer ação humana, enfatizando aqui a linguagem e a razão que, independente do espaço operacional, se faz num espaço especificado por uma emoção.
Assim, podemos conceituar a emoção por: reações (respostas) do organismo diante de fatores decorrentes de mudanças internas ou externas, conscientes ou inconscientes apresentadas, considerando as múltiplas circunstâncias, como: fisiológicas, relacionais, pessoais, cognitivas, afetivas, sociais etc, em congruência com os aspectos ontogênicos e filogênicos da existência humana que se caracterizam sobretudo pela conservação da vida.
A emoção e os estados emocionais estão presentes na vida e no organismo de todos os seres humanos, sua diferenciação e classificação se faz, basicamente, pela consciência que, por meio da linguagem, torna possível a compreensão, a decodificação, a nomeação das emoções produzidas e vividas pelo ser. Entretanto, a expressão consciente das emoções apresenta-se em articulação com a cultura e a história do ser humano. Temos, assim, culturas que se expressam diferentemente de outras, por valorizarem a expressão de algumas emoções e de outras não. A partir disso, poderemos entender que a expressão de uma emoção pode ser aprendida, mas, não a emoção em si.
Damásio (2000:75) afirma que a expressão das emoções está ligada ao aprendizado e à cultura, mas chama a atenção para o fato de que as emoções “... são processos determinados biologicamente, e dependem de mecanismos cerebrais estabelecidos de modo inato, assentados em uma longa história evolutiva”.
Encontramos aditivos a esse respeito em Bisquerra (2000), que pontua a função das emoções como motivadora, adaptativa, informativa e social; ressaltando que a cultura e a sociedade regulam as expressões das emoções.
Para o autor citado, algumas atitudes ou episódios emocionais vivenciados repetidas vezes podem desenvolver “atitudes cognitivas emocionais”, ou seja, situações consecutivas de tristeza em demasia podem desencadear um processo de depressão.
Acreditamos que o trabalho desenvolvido nos ambientes de aprendizagem, poderá auxiliar na identificação, valoração e expressão das emoções, porém, as emoções em si, como disposições biológicas, ocorrerão/fluirão no organismo.
Desse modo, podemos entender que há possibilidade de aprendermos a valorizar determinadas emoções em decorrência das situações e circunstâncias experenciadas. Tais vivências levam-nos a desejar repetir ou não, a manifestação de emoções específicas.
Maturana (1998:15) chama-nos a atenção para o fato de que “ao nos declararmos seres racionais vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções, e não vemos o entrelaçamento cotidiano entre razão e emoção, que constitui o nosso viver humano, e não nos damos conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional.”
O ser racional é também um ser emocional e vale lembrar que as relações estabelecidas entre os seres humanos se faz no imbricamento entre razão e emoção mediada pela linguagem.
A linguagem se constrói apoiada nas interações recorrentes entre o ser humano e o mundo que estão consubstanciadas, impregnadas da história de cada elemento em interação. Desse modo, a linguagem se faz entre sujeitos em conversação considerando-se o aspecto ontogênico dos seres, permeados pela emoção.
Os diversos conceitos de linguagem apontam-nos a relação extremamente imbricada entre a expressão e a comunicação, na qual “a expressão manifesta o eu, a comunicação é procura do tu, tendendo o eu e o tu a unir-se na unidade do nós.” ( Gusdorf, 1970:53)
Se nos utilizamos da linguagem (corporal, oral e escrita) para nos comunicarmos e expressarmos ao mundo e, do mesmo modo, lemos, sentimos, enxergamos e percebemos o mundo por meio da linguagem, esse processo consciente está impregnado de emoção, sendo essa, em diversas circunstâncias, a indutora de ações e reações expressas pela linguagem.
Em sua necessidade de interação com o meio que o envolve e o habita, o ser humano utiliza-se da linguagem, em suas diversas manifestações, para expressar-se e desenvolver-se.
Gonzáles considera que “Para o surgimento da linguagem, então, precisa-se de uma história de encontros recorrentes entre organismos que possibilite a coordenação conjunta de ações do conviver cotidiano deles.” (1993:30)
Assim, podemos inferir a respeito da ligação entre razão, emoção e linguagem, nos quais a razão e a emoção utilizam-se da linguagem como veículo de expressão e de comunicação entre o eu, o mundo e o outro; lembrando que esse outro pode apresentar-se no diálogo consigo mesmo (interno), ou seja, com o outro eu, e todo esse processo está promovendo manifestações emocionais.
Como educadores nos ambientes de aprendizagem, temos presenciado situações que refletem a dificuldade na inter-relação educador/educando. Ouvimos constantemente as manifestações de insatisfação, tanto por parte de educandos como dos educadores, no que se refere ao desentendimento entre o que um e/ou outro expressa em seu linguajar nesse processo relacional.
Esse aspecto é de suma importância para a reflexão do que entendemos por linguagem emocional.
Segundo Tenenbaum4 (2001), a Linguagem Emocional pôde ser cientificamente estudada a partir de Freud, por volta de 1901, com o livro: “A Interpretação dos Sonhos”, ao citar que houve a percepção de que nossa mente possui duas linguagens: racional e emocional.
Tenenbaum (ibid.) refere que na psicanálise a Linguagem Racional é chamada de “processo secundário do pensar” e “representa o estímulo apreendido pelos órgãos sensoriais, organizando a percepção do mundo circundante para definir a melhor orientação adaptativa em comum acordo com as representações do ‘processo primário de pensar’. É um processo consciente ou pré-consciente”.
Já a Linguagem Emocional, ou “processo primário do pensar” como foi chamada por Freud, é:
“a primeira a se desenvolver no ser humano (...) a linguagem emocional se expressa utilizando-se das representações de cenas com os objetos que foram relacionados pela pessoa ao estímulo. Essas cenas mentais são sempre inconscientes e receberam o nome de ‘fantasias’. Assim, toda a vez que somos estimulados (fome, sede, medo, excitação sexual, etc.) por eventos biológicos (internos) ou sociais (externos) nossa mente engendra uma fantasia. O processo primário possui várias camadas. A mais superficial é a erótica, através da qual os vínculos se realizam. As demais são camadas narcísicas, isto é, relacionadas com a constituição da identidade pessoal. A experiência afetiva se expressa através destas camadas” ( Tenebaum, 2001).
É interessante percebermos o paralelo traçado por Tenenbaum entre Linguagem Racional e Emocional.
Este texto está concebendo a Linguagem como expressão e comunicação e, portanto, consciente e racional.
Desse modo, compreende-se a Linguagem Emocional por meio do imbricamento entre emoção e razão.
Entendemos que o “processo primário do pensar”, proposto por Freud, está relacionado à emoção, enquanto o “processo secundário do pensar” associa-se à razão, mas não pretendemos cindir a Linguagem em racional e emocional, tal como Tenenbaum e, sim a articulação, tecitura, entre esses aspectos.
No entanto, a postura aqui explicitada percebe a singularidade de cada um dos aspectos estudados, mas acredita na impossibilidade de ruptura, fragmentação entre ambos.
Maturana (1997:170) explicita que: “... a existência humana se realiza na linguagem e no racional partindo do emocional.”
Se o simples domínio e articulação de palavras e ou da linguagem, sustentadas na racionalidade, fosse suficiente para nos fazer entender, nos aproximar dos outros e ainda interagir com o mundo, poderíamos dizer que esses problemas não mais existiriam atualmente, uma vez que o uso de técnicas de apropriação e domínio da linguagem seriam facilmente manipuladas.
Entretanto, Maturana deixa claro na afirmação acima, a linguagem e o racional partem do emocional e, portanto, envolvem outros aspectos que o simples “domínio de técnicas” para o “con-viver” pelo “con-versar” humanos.
Articular, entrelaçar, imbricar: linguagem, razão e emoção passam a ser, desse ponto de vista, o grande desafio; e propõe-se que essa tecitura se dê pelo que chamamos de Linguagem Emocional.
A Linguagem Emocional é compreendida como um meio, uma forma, um dispositivo, um sistema intencional de expressar e comunicar emoções, mediado/permeado/viabilizado pela linguagem (conversação), para a relação de encontro, de contato, entre os sujeitos aprendentes em processo contínuo de transformação. Assim, a Linguagem Emocional reflete, sistematicamente, as múltiplas formas em que os seres humanos estabelecem relações, utilizando-se das diversas linguagens, considerando o fator emocional como importante desencadeador das transformações decorrentes desse processo.
Os seres autopoiéticos inter-relacionam-se em espaços operacionais. Os ambientes de aprendizagem são espaços operacionais onde os sujeitos aprendentes, por meio de dinâmicas relacionais compostas por processos de ação e reflexão, se “des-estruturam” e se “re-estruturam” recursivamente (no sentido espiralado).
As transformações propostas nos ambientes de aprendizagem geram mudanças nesse espaço operacional. Podemos, então, considerar que quando mudamos as emoções ou quando induzimos determinadas emoções, transformamos o ambiente ou espaço operacional e, conseqüentemente, interferimos e transformamos o processo reflexivo e as ações entre os sujeitos autopoiéticos. As tranformações estruturais que ocorrem, podem desencadear outras reflexões e ações, transformando, assim, as relações estruturais dos seres envolvidos.
Não estamos falando dos tipos de emoções, mas refletindo sobre as mudanças significativas que a emoção pode provocar em ambientes de aprendizagem, quando é expressa por uma linguagem consciente, estimulada pelos agentes mediadores desse processo.
O processo de indução de emoções pode ser desencadeado pelo uso atento e adequado de diferentes linguagens e, desse modo, não aprendemos a ter e sentir emoções mas, sim, a expressá-las. Somos seres emocionais por natureza. Na educação, educadores e educandos expressam, em seu con-viver, suas emoções, espontaneamente, na maioria das situações vivenciadas nos ambientes de aprendizagem.
Encontramos em Wallon (1941/1994:124) apud Almeida (1999:39), nos estudos a respeito da emoção e afetividade, uma característica importante das emoções, que esse autor denomina de contágio das emoções:
“Entre as atitudes emocionais dos sujeitos que se encontram no mesmo campo de percepção e de ação, institui-se muito primitivamente uma espécie de consonância, de acordo ou de oposição. O contato estabelece-se pelo mimetismo ou contraste afetivos. É assim que se instaura uma primeira forma concreta e pragmática de compreensão, ou melhor, de participacionismo mútuo. O contágio das emoções é um fato comprovado variadíssimas vezes. Depende do seu poder expressivo, no qual se basearam as primeiras cooperações de tipo gregário, e que incessantes permutas e, sem dúvida, ritos coletivos transformaram meios naturais em mímica mais ou menos convencional.”
Wallon fala-nos do contágio das emoções pelo mimetismo, entre sujeitos no mesmo campo de percepção e ação. A partir disso, podemos inferir sobre a indução de emoções nos diversos ambientes e situações, entre os seres relacionais, inclusive, nos ambientes online.
Entendemos que a característica da emoção explicitada por Wallon como contágio emocional, em congruência aos aspectos explicitados por Damásio e Maturana, apresenta subsídios relevantes ao uso da linguagem emocional na educação, especialmente no que se refere à forma de despertar e ou provocar reações e ou emoções no outro.
Assim, entendemos que, pelo mimetismo emocional, as reações de um sujeito da aprendizagem provocam no interlocutor outras reações (respostas) convergentes (na mesma direção), ao passo que, pelo contraste emocional, a resposta dar-se-á por reações defensivas dos sujeitos relacionais.
Desse modo, a compreensão do conceito de contágio emocional articulado às circunstâncias, ao ambiente, à mediação, à interação, à reflexão são fatores essenciais para o que compreendemos por linguagem emocional, para o educador em suas relações nos espaços operacionais de aprendizagem.
Muito temos refletido e estudado sobre a formação de professores. Os mais diversos autores desenvolvem seus estudos, pesquisas e propostas a respeito do tema que todos concordam ser de fundamental importância ao processo de transformação e de desenvolvimento humano.
Freire (1996) aponta a questão da não-neutralidade da prática educativa, exigindo definição, decisão, ruptura, posição, por parte do professor, infere-nos a necessidade de mudanças posturais desse educador e que, possivelmente, só se transformará baseado no desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo desse profissional no processo de conscientização.
Assim, podemos inferir que a emoção pode estar associada e ser um diferencial a fatores que envolvem o processo de conscientização, numa visão freireana, ou seja, conscientizar para a ação deve considerar os aspectos afetivos e ou emocionais que envolvem os sujeitos, como propulsores do processo. Poderíamos pensar e propor a “afetivação” para a conscientização.
Estamos propondo com o termo afetivação o reconhecimento, a identificação e a apropriação das emoções, como manifestações afetivas e estimuladoras de ações conscientes, racionais, que permeiem e conduzam ao processo de conscientização, uma vez que esse movimento não se dá apenas na esfera racional e ou cognitiva.
No processo de afetivação, pretende-se que os sujeitos em interação repensem seu estado de introspecção e caminhem para o movimento de extrospecção coletiva, “contagiando” a todos socialmente.
Compreende-se, portanto, a impossibilidade de cisão entre razão e emoção e, também, por entendermos que as transformações individuais e coletivas são feitas no imbricamento desses aspectos.
Temos, assim, a preocupação constante com a formação de um professor reflexivo, crítico, criativo, consciente, inter-ativo, cooperativo etc., mas pouco se fala dos outros aspectos que envolvem o desenvolvimento humano: os aspectos afetivo-emocionais.
O fator emocional fundamenta e sustenta o aspecto racional. Não há como dissociá-los. Não há racionalidade no ser-humano sem a emoção. A emoção pode inclusive interferir na razão, e a linguagem e a razão se fazem imbricadas e interdependentes da emoção.
Mas o aspecto emocional na formação dos educadores não teve e não tem tido a devida valorização e atenção.
Constantemente, estudamos e refletimos insistentemente sobre a necessidade de transformação dos professores, mas como nos diz Nóvoa (1992:25)
“... a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante ‘investir na pessoa’ e dar um estatuto ao ‘saber da experiência’.”
Talvez o inovar, no caso do processo de formação de educadores, neste momento deva visar ao que Espírito Santo (1996) chama de “transgressão da barreira emocional”, quando se referia ao trabalho desenvolvido com alunos conscientizando-os da existência do “corpo emocional”. Desse modo, o mesmo deve ser trabalhado com os educadores, mas, com a possibilidade de não apenas conscientizá-los da existência desse corpo emocional, mas, do ato reflexivo e da vivência de suas emoções (expressas na linguagem), para então desenvolver sua prática permeada por uma linguagem emocional congruente.
Ao mesmo tempo, estamos vivendo e pensando a formação de educadores no mundo atual e, portanto, devemos refletir esse processo na era tecnológica que tem trazido mudanças profundas nas formas de relações humanas emergentes.
Byington (1996:68-69) assinala que “...a posição corporal e a atitude dos alunos são expressivas e nos auxiliam a identificar o que ocorre em sua psique (...) por isso dizemos que o corpo, como tudo mais, é simbólico e requer o conhecimento e a atenção do professor.”
Nos ambientes online, a observação corporal ainda é restrita e ou limitada. Por nos utilizarmos, em grande parte dos casos, da comunicação por meio da linguagem escrita, os aspectos corporais observáveis que envolvem olhar, expressão oral, gestual, tátil, tornam-se inviáveis. Portanto, há necessidade de que os professores nesses ambientes dediquem especial atenção às comunicações escritas dos alunos expressas pela Linguagem Emocional no processo de interação.
Compreende-se, então, que a mediação pedagógica desenvolvida nos ambientes online, por se fazer também pela linguagem escrita, precisa voltar seu olhar, profundamente, para a linguagem emocional utilizada pelo mediador, uma vez que é ela que permeia as relações estabelecidas no ambiente de aprendizagem.
Muito se tem discutido sobre cursos a distância. Ambientes informáticos são criados na ânsia de buscar outras formas de viabilização desses cursos.
Novamente surgem questionamentos a respeito da linguagem utilizada nesses cursos. Não estamos tratando de Linguagens de programação, mas, da linguagem utilizada para a comunicação e ou conversação entre os indivíduos. O linguajar que possibilita essa interação entre os seres envolvidos se dá, em sua maioria, pela escrita. Muitos associam esse momento como “a volta da comunicação por cartas”, porém, de uma forma muito mais rápida e eficiente.
Constantemente nos deparamos com comentários a respeito da “frieza” na comunicação via Internet. Pessoas expressam receio de que esse veículo propicie o isolamento dos indivíduos, a desvalorização do contato presencial, físico.
A interação via computador, mais específicamente, a Internet, não deve ser comparada à interação presencial, pois são diferentes sim; e não queremos aqui as qualificar, pois entendemos que não é esse o objetivo desse estudo, porém devemos fazer algumas reflexões à luz de aspectos significativos:
Vários usuários da Internet utilizam-se de símbolos, que já se tornaram universais, na tentativa de “quebrar o gelo”, que esse tipo de interação pode proporcinar. Assim, com o uso de símbolos, os indivíduos procuram “expressar” suas emoções em suas incursões pelas salas de bate-papo, por exemplo. Podem expressar tristeza, alegria, vergonha, raiva etc. Tais símbolos recebem o nome de emoticons.5
Mais uma vez estamos diante da necessidade humana de utilizar uma linguagem que permita a expressão de emoções.
O uso dos símbolos acima citados, embora representem uma linguagem que comunica alguns sentimentos e emoções, não está caracterizando a linguagem emocional aqui apresentada, uma vez que a compreensão da mesma envolve o contexto, a relação entre os sujeitos em interação.
Não há modelos, receitas ou signos na linguagem emocional. Há sim uma proposta de construção de ambientes de aprendizagem, em que se considerem e vivenciem as emoções, expressas no linguajar das conversações, como mediadoras do processo de construção do conhecimento, facilitando a dinâmica relacional entre os seres, o meio e suas circunstâncias.
Maturana e Bisquerra chamam a atenção para o cuidado com a educação emocional dos indivíduos, frente às novas tecnologias:
“Educar emocionalmente as novas gerações para afrontar com êxito os novos caminhos que conduzem ao futuro” ( Bisquerra, 2000:24).
“Este viver tecnológico...não deve ocultar a ampliação e compreensão da fisiologia das emoções...” ( Maturana e Bloch, 1996:239).
A Linguagem Emocional vem compor, articuladamente, com a Educação, uma reflexão sobre a possibilidade de desenvolvermos intencionalmente um novo olhar para os aspectos emocionais presentes nas interações que emergem nos ambientes de aprendizagem, nos quais a razão caminha “de mãos dadas” com a emoção, mediada pela linguagem. Não podemos mais permitir essa dissociação, essa fragmentação.
Compreendemos que, nos ambientes de aprendizagem, a linguagem emocional está presente nas conversações estabelecidas por todos os sujeitos em interação. No entanto, quero chamar a atenção ao aspecto da intencionalidade no uso da Linguagem Emocional pelo mediador pedagógico, que pode representar um diferencial significativo para o processo de construção do conhecimento.
Especialmente, nos ambientes online, nos quais a expressão e ou comunicação ocorre pela linguagem escrita, o cuidado com o uso de uma Linguagem Emocional intencional, que possa induzir e ou desenvolver emoções que convirjam em aproximação, reciprocidade, interação, deve ser melhor considerado.
Nos cursos a distância em ambientes online, o uso intencional de uma linguagem emocional merece cuidado e atenção. Os cursos em ambientes online devem considerar a abordagem do “estar junto virtual”, que pressupõe a criação de um ambiente de aprendizagem interativo, onde a construção do conhecimento seja um ato contínuo e um compromisso assumido por todos os sujeitos aprendentes.
Baseado nessa concepção, o cuidado e atenção com a Linguagem Emocional dos mediadores pedagógicos deve ser um ponto importante a ser observado e desenvolvido. O uso intencional de uma Linguagem Emocional que possa provocar, instigar, “induzir”, contagiar todos os participantes a movimentos de aproximação recursiva, na busca contínua de “quebrar couraças” que bloqueiam, muitas vezes, a exposição de emoções, se faz necessário e pode auxiliar no processo de construção do conhecimento.
Os ambientes online permitem o “disfarce” de emoções e sentimentos, uma vez que o uso da linguagem escrita possibilita-nos “filtrar”, camuflar, o que queremos ou não expressar.
Desse modo, a linguagem emocional utilizada pelo mediador pedagógico pode abrir espaço para que emoções e sentimentos sejam desvelados, criando, então, um espaço operacional mais coeso, mais hamônico e propício às inter-relações emergentes e, conseqüentemente, possibilitando construções e reflexões mais complexas.
Somos seres racionais e emocionais. A aceitação e compreensão desse fato só trará benefícios a todos nós. Trabalhar a formação de educadores partindo desse novo olhar, é respeitá-lo por inteiro, é percebê-lo como sujeito, também aprendente, que precisa assim como seus alunos, experenciar, vivenciar e expressar suas emoções. É buscar a coerência entre teoria e prática no saber fazer, saber conhecer, mas, fundamentalmente, no saber ser integralmente.
“...Viver é afinar o instrumento
De dentro prá fora, de fora prá dentro
A toda hora, a todo o momento
De dentro prá fora, De fora prá dentro...”Walter Franco (1991)6
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1 - O presente texto foi parcialmente apresentado na ANPED - 2002 – 25ª Reunião Anual. set-out/02
2 -Infelizmente nem todas as referências telemáticas apresentam data de publicação. Desse modo, o ano refere-se à consulta do artigo na Internet.
3 - “Autopoiese é uma palavra composta das palavras gregas ‘para si mesmo’ e ‘produzir’” (Maturana, 1997:133). Maturana e Varela desenvolveram conceitos sobre sitemas autopoiéticos e organizações autopoiéticas. Para maiores detalhes ver as obras desses dois autores.
4 - Nem todas as referências telemáticas estão disponibilizadas no ambiente (Internet) com data e página. TENENBAUM, D. A Linguagem Corporal. Disponível pelo endereço eletrônico: http://www.decio.tenenbaum.com/psicologiamedica/textos/ Consultado em nov/2001.
5 - Para mais detalhes ver Revista Educação. Ano 27 – nº 240 – Ed. Segmento, abril/2001, p. 40-51
6 - Trecho extraído da música Serra do Luar, de autoria de Walter Franco, gravada por Leila Pinheiro.
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