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Artigos
Getúlio S. Nunes Professor da FAESP

 
getuliosn@aol.com.br

ESSÊNCIA DA NOVA ORGANIZAÇÃO: a capacidade de aprender

Resumo
O trabalho pretende discutir o desenvolvimento consciente de iniciativas para novas formas de pensar na organização e na vida social, reagindo à tendência dos modismos que dominam o mercado e fazem com que a forma de refletir sobre os problemas organizacionais não acompanhe o cenário complexo delineado nas organizações.

Palavras-Chave: Conhecimento, Aprendizagem, Organização.

Abstract
The work intends to discuss the conscious development of initiatives related to the new nature forms of thinking in a organization and in a social life reacting to the tendence of modernisms that dominate the market and produce a way of reflecting about organizations problems that doesn´t go along with this complex scenary traced in the organizations.

Keywords: Knowledge, Learning, Organization.

Desenvolvimento de Novas iniciativas sociais

Algumas práticas emergentes, tais como novas formas de propriedade, investimento ético, grupos auto-dirigidos, tomada de decisão em consenso, serviços aos clientes, vêm transformando a sociedade e as organizações. Mas afinal, o que está mudando? Por que, cada vez mais, assistimos organizações e comunidades movimentando-se contra a natureza anti-social da época e da mentalidade moderna? Ainda a resposta é complexa, mas pode-se dizer que hoje nos encontramos cada vez mais numa crescente procura de ambientes de trabalho onde sejam desenvolvidas novas faculdades sociais e praticados valores de uma sociedade sustentável.

A origem da sociedade do conhecimento é discutível. Alguns autores a atribuem ao aparecimento do primeiro computador – isto é, a informação, o marco que assinalou a transformação de uma sociedade, na qual os fatores de produção da economia, terra, mão-de-obra e capital, tornaram-se secundários em relação ao “conhecimento”. E é por isso que a sociedade do conhecimento também é uma sociedade de organizações.1

Tentar antever em cada detalhe essas transformações é arriscado e, se a história serve de guia, pode-se dizer que a configuração da sociedade que se anuncia só pode obter-se por via especulativa. Uma especulação fundada num futuro que já sentimos correr e nos sinais cada vez mais claros, pelas sínteses até agora citadas, de que estamos caminhando depressa para uma nova sociedade de organizações.

A atitude especulativa pode ser bem entendida, quando Poirier diz que “a coerência global das nossas verdades físicas e metafísicas só se conhece retrospectivamente”.2 Cremos, no entanto, que podemos analisar probabilisticamente onde estarão os problemas centrais e as questões que irão surgir.

Segundo Drucker (1998), já conhecemos as tensões e problemas centrais que confrontam a sociedade de organizações. A tensão criada pela necessidade de estabilidade da comunidade e pela necessidade de desestabilização da organização; o relacionamento entre indivíduo e organização e as responsabilidades de um perante o outro; a tensão que surge a partir da necessidade de autonomia da organização e da aposta da sociedade no Bem Comum; a crescente demanda por organizações socialmente responsáveis; a tensão entre pessoas com conhecimentos especializados e a necessidade da organização para que estes especialistas trabalhem em equipe, serão, segundo o autor, preocupações a serem resolvidas não por legislações ou filosofias, mas sim onde tiveram origem.

A forma de conhecimento especulativa anunciada anteriormente deixa claro que, via de regra, os sinais que a crise atual anuncia, e que afetam mais profundamente a questão do conhecimento e as organizações, não provêm do seu próprio domínio. Não é somente a ciência e a tecnologia que criam novos conhecimentos, tornando obsoletos os antigos. As mudanças rápidas, baseadas no conhecimento, não se limitam às empresas, como às vezes transparece. A inovação social é tão importante quanto a técnica e a científica e vem se tornando uma disciplina capaz de ser ensinada e aprendida.

O processo de aprendizado precisa tornar-se organizado e vitalício para os trabalhadores do conhecimento, com a geração de novas teorias a respeito de como o ser humano aprende.

A necessidade de organizar-se para mudar requer um esforço na descentralização das organizações, visando uma dinâmica maior na sua forma de atuar; requer também uma capacidade cada vez maior de auto-organização, com vistas a aprender a explorar seus conhecimentos com base em seus próprios sucessos.

A Essência da Nova Organização

Exemplos do passado demonstram que as atividades organizadas têm estado conosco desde a antiguidade.3 Contribuições mais recentes, como a de Adam Smith, discutidas a partir da clássica A Riqueza das Nações, publicada em 1776, fizeram com que a administração dessas atividades fosse adquirindo um corpo de conhecimento, uma disciplina de estudo formal e objeto de investigação sistemática.

Nenhum período da história organizacional foi mais penetrado pela aparente inexorável e irreversível idéia de uma sociedade constituída de empregados de grandes organizações, do que o século XX. Drucker previra em 1965, por exemplo, que por volta de 1990 a produção industrial do mundo estaria nas mãos de 15 empresas americanas multinacionais, empregando cada uma milhares de pessoas. Porém nenhum período, desde a década de 60, se sentiu à vontade com essa idéia.

O que assistimos, nos últimos 10 anos, foi, em verdade, um crescimento de médias e pequenas empresas. As empresas de grande porte, boa parte delas, vêm perdendo participação no mercado mundial, podendo-se dizer que o mesmo vive uma espécie de “deseconomia” de escala. Esse paradoxo que enfrentamos constitui a base do fenômeno organizacional mundial, cujas dimensões históricas já podem ser previstas.

Do princípio de 1860, por mais de um século, as organizações se fundamentaram no comando e controle, baseados na propriedade. A força de trabalho não era constituída de pessoas autônomas ou independentes. Tratava-se de trabalhadores, que na sua maioria serviam a um Senhor. Apenas empregados de fábricas trabalhavam para uma organização. A tendência a uma sociedade constituída, na sua maioria, por empregados de grandes organizações, deu-se após a Primeira Guerra Mundial, atingindo, o seu auge por volta de 1965. De maneira também crescente, todavia, observa-se que o vínculo não é somente funcional. As pessoas passam a trabalhar também como prestadoras de serviços, contratados temporários, caracterizando, na maioria dos casos, a “terceirização”, e assim por diante.

Assim, enquanto a antiga organização baseada na propriedade é vista como permanente, muitas das novas relações são temporárias e acordadas em conformidade com a necessidade ou demanda. Essas relações fizeram com que organizações pautassem-se em objetivos, políticas e estratégias organizacionais para que pudessem sobreviver.

O Conceito de “Organizações” está Mudando

Novas abordagens estão surgindo, talvez não para substituí-las, mas sobrepô-las. A organização é, hoje, mais do que “propriedade”, já não é somente definida pelos resultados alcançados no mercado, é acima de tudo “social”. Subjacente à exploração da vida organizacional está o reconhecimento de que todas as iniciativas e organizações são criações humanas, concebidas como resposta a uma idéia percebida, e são continuamente modificadas pelas idéias e ações de outras pessoas.

Embora numerosas influências nas mudanças organizacionais se respaldem na importância atribuída às questões tecnológicas, uma organização é mais do que um conjunto de bens e serviços – é também uma sociedade humana. Como observou Capra, e outros:

“organizações não são sistemas mecânicos, e sim sistemas vivos com fases de crise, adaptação, crescimento e desenvolvimento”.

Conseqüentemente, metáforas com insumos, produtos, mecanismos de um relógio ou motor funcionando, não mais são relevantes para o ciclo de vida de organizações.

Tão importante quanto essas mudanças na teoria da organização e aquelas resultantes em sua estrutura, é o fato de estarmos rapidamente deixando de acreditar que só há uma teoria da organização e uma estrutura ideal.

Tal fato, pela própria diversidade das concepções atuais, deixa claro que estamos caminhando rapidamente para as “novas organizações”. Nossa experiência mostra que mesmo entendendo que o mecanismo da mudança seja de difícil compreensão, colocar em prática e avaliar a competência organizacional não terá bases em princípios antigos de propriedade, estabilidade e controle, mas nos princípios emergentes de interdependência, flexibilidade e parceria, que esperamos envolver e inspirar nas pessoas, bem como evoluir equipes e aprender a adquirir e empregar o conhecimento.

Chegamos a um momento na história das organizações em que o conhecimento torna-se uma necessidade econômica premente apoiado no surgimento de um consenso no sentido de que será primordial para as organizações do futuro a sua capacidade de aprender: fator indispensável para a adaptação a um mundo cada vez mais desafiante, competitivo e complexo.

Drucker (1970:34), já como tendências à época que levariam ao que intitulou a Sociedade de Conhecimento, comenta:

O conhecimento, nestas últimas décadas, tornou-se capital principal, o centro de custo e o recurso crucial da economia. Isso muda as forças produtivas e o trabalho; o ensino e o aprendizado; e o significado do conhecimento e suas políticas. Mas também cria o problema das responsabilidades dos novos detentores do poder, os homens do conhecimento.

Ao olharmos para o desenvolvimento dessas tendências, mais especificamente o conhecimento em relação aos fatores críticos de sucesso de uma organização, é importante reconhecer uma polaridade básica. O conhecimento:

(...) passou de auxiliar do poder monetário e da força física4 à sua própria essência e é por isso que a batalha pelo controle do conhecimento e pelos meios de comunicação está se acirrando no mundo inteiro (...) o conhecimento é o substituto definitivo de outros recursos (apud Antunes, 2000:24).

Antunes (2000:33), ao se referir ao conhecimento como recurso econômico, comenta que a:

(...) capacidade de adquirir e desenvolver o recurso do Conhecimento é inerente ao ser humano, isto diferencia o recurso do conhecimento dos demais recursos em alguns aspectos importantes, considerados a seguir:

Assim, o que assistimos, com raras exceções, é a agregação cada vez maior aos valores de produção já existentes,5 de serviços intelectuais, tais como: inovação, criatividade pessoal, e capacidade de aprender a aprender.

1 -A finalidade e a função de cada organização, empresarial ou não, são a integração de conhecimentos especializados numa tarefa comum
2 -R. Poirier, prefácio a Parain-Vial,: apud Santos,1986
3 -São exemplos típicos as construções egípcias e fenícias, a grande muralha da China, etc.
4 -Visão denominada por alguns autores aos recursos predominantes na sociedade industrial
5 -Terra, capital e trabalho, por exemplo.

 

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* Este número da RAFI on-line é uma reimpressão da RAFI  nº2 - Ano2 - 2005 (ISSN 1678-6289)


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