Resumo
Este artigo objetiva analisar o nível de estresse dos servidores da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso, identificando os possíveis agentes causadores. Esta pesquisa foi realizada a partir da coleta de dados com 108 servidores da Secretaria Estadual de Saúde do estado de Mato Grosso, cujos dados foram obtidos por intermédio de dois instrumentos: um questionário e um Teste. O questionário, contendo duas páginas e nove perguntas abertas e fechadas, visou traçar o perfil dos sujeitos da amostra e detectar as causas do estresse; e o Teste que mediu o nível de estresse foi o Teste de Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL, 2000). A análise dos resultados detectou que 60,1% dos servidores estavam estressados, na fase da Resistência (fase intermediária que ocorre quando o estressor continua presente por períodos maiores). A maioria desses 60,1% era mulheres, casadas, na faixa etária de 41 a 50 anos, ocupando cargo de Técnico e Apoio do SUS e trabalhando período Integral. O estudo identificou também que os chefes são mais estressados. A pesquisa conclui que o motivo, ou agente causador, do estresse é a junção de vários fatores, os quais serão discutidos no presente artigo.
Palavras-Chave: Estresse, Estudo Diagnóstico, Recursos Humanos, Funcionalismo Público.
Abstract
This paper aims to analyse the stress level among government health employees of Mato Grosso, as well as to identify the causing factors. The sample of the research was 108 employees, who were asked to answer a questionary contained 9 questions and also to submitted to the ISSL test in order to evaluate their level of stress. The study found that 60,1% out of these employees were stressed. Most of them were merried women, aged between 41-50 years-old, working full-time. The study also identified that lead person were the most stressed. The research concluds that the causing agent was a combining of many factors, which will be discussed throughtout this paper.
Keywords: Stress, Diagnostic Study, Human Resourses, Government Employee.
A sociedade capitalista, competitiva e mutável em que vivemos impõe ao ser humano a necessidade constante de se atualizar, aprender, inovar e tentar alcançar os seus objetivos. Para muitos, alcançar os seus objetivos significa comprar, adquirir, consumir e possuir bens; mesmo que para isso elas tenham que trabalhar mais, correr mais e ter menos tempo para si próprias e para seus familiares. Segundo ALBERT & URURAHY (1997), essa falta de tempo, associado ao “ritmo competitivo de vida, tensão constante, obsessão por resultados, sedentarismo, alimentação desequilibrada e sono irregular”, tem sido apontado como principais causadores do estresse.
De fato, o estresse tornou-se a “doença do século XX” de acordo com relatório da ONU de 1992. E mais, o estresse já ganhou código próprio na classificação Internacional de Doenças (CID) na Organização Mundial de Saúde (OMS).
Só para se ter uma idéia do que essa doença representa em termos financeiros, a industria americana gasta entre 200 a 300 bilhões de dólares anualmente com ela. No Brasil essa doença já está presente em 32% das pessoas (Lipp, 2000), o que certamente justificaria uma atenção especial por parte das autoridades governamentais e também dos pesquisadores. Existem dois tipos de estresse: o positivo, que impulsiona o indivíduo a agir e o negativo, que imobiliza e desorganiza a vida do mesmo. Aqui enfocaremos o negativo e sua relação com o trabalho, justamente por apresentar sua característica nefasta e o quanto ele pode afetar a produtividade do funcionário.
E para entendermos melhor o estresse, no próximo item discutiremos o estresse do ponto de vista do seu conceito, tipos, fases e de sua sintomatologia.
A palavra “stress” foi utilizada, pela primeira vez, no século XIV por Lazarus e significava “aflição e adversidade”. E na década de 30, foi utilizada pelo médico endocrinologista austríaco da Universidade de Montreal, Dr. Hans Selye, que a tomou emprestado da física que significa o “peso que uma ponte suporta até que ela se parta” para definir a Síndrome de Adaptação Geral ou SAG, Síndrome de Stress Biológico, ou Síndrome de estar apenas doente ou Síndrome de Stress como o conjunto de reações que um organismo desenvolve ao ser submetido a uma situação que exige esforço de adaptação.
Para Rios (1998, p. 08), o Estresse é:
“Constituído por um conjunto de respostas específicas e/ou generalizados do nosso organismo, diante de estímulos externos ou internos, concretos ou imaginários, que são percebidos como pressões e que exigem a entrada em ação de mecanismos adaptativos com capacidade de nos ajustar a essas pressões, propiciando meios adequados de reação, e preservando nossa integridade, nosso equilíbrio, nossa vida.”
Já Molina (1996, p. 18) o define como “qualquer situação de tensão aguda ou crônica que produz uma mudança no comportamento físico e no estado emocional do indivíduo e uma resposta de adaptação psicofiológica que pode ser negativa ou positiva no organismo”
Embora haja várias definições para o estresse, percebemos que todas apresentam um ponto comum: a reação do organismo frente a diversas situações que pedem uma adaptação.
De acordo com Lipp & Rocha (1999), o estresse foi dividido por Selye (1952 ) em 3 fases que são: alerta, resistência e exaustão.
A Fase de Alerta ocorre quando o sujeito entra em contato com sua fonte de estresse, também conhecida como estressor e sente que deve reagir imediatamente a essa situação.
Os sintomas mais freqüentes desta fase encontram-se no quadro abaixo:
| Nó no estomago; | Tensão nas costas (ombros levantados); |
| Mãos ou pés frios; | Aumento súbito da pressão arterial; |
| Boca seca; | Hiperventilação (respiração ofegante); |
| Taquicardia; | Aperto da mandíbula ou ranger de dentes; |
| Insônia; | Sudorese excessiva. |
Geralmente experimentamos essa fase diariamente e o nosso organismo já está preparado para enfrentá-la, desde que não ultrapasse nossa habilidade de adaptação.
A Fase de Resistência ocorre quando o estressor continua presente por períodos maiores. Para Lipp (2000), um indivíduo pode passar da fase anterior para esta em questão de minutos.
Os sintomas desta fase estão apresentados no quadro abaixo:
| cansaço constante; | tontura ou a sensação de estar flutuando no ar; |
| dificuldade com a memória; | falta de interesse por sexo; |
| dúvidas quanto a si próprio; | hipersensibilidade emotiva; |
| apatia; | problemas estomacais; |
| herpes simples; | dificuldade de concentração; |
| desânimo; | depressão. |
Na Fase de Exaustão, a última fase, o estresse se instalou, tornando-se intenso demais e ultrapassando as reservas de energia adaptativa.
Os principais sintomas são:
| úlcera ou problema de digestão sério; | problemas dermatológicos; |
| gastrite; | falta de energia completa; |
| dependência atípica das pessoas ao seu redor; | inabilidade de trabalhar; |
| pensar e falar somente no estressor; | medos e ansiedade, |
| irritabilidade grande; | depressão. |
| hipertensão crônica; |
Porém, no Manual do Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL), Lipp (2000) relata ter identificado, tanto na clínica como estatisticamente, uma quarta fase de stress chamada de quase-exaustão, encontrada entre a fase de resistência e exaustão. Nesta fase, a pessoa está enfraquecida e não consegue mais se adaptar ou resistir ao estressor. Doenças surgem, mas não tão graves como na exaustão.
É importante enfatizar que todas as doenças apontadas nos quadros anteriores não são provocadas pelo estresse. Na verdade o estresse desencadeia no indivíduo ou as doenças que ele tinha predisposição, ou facilita a entrada de outras devido à baixa resistência do organismo.
Uma das classificações de estresse bem aceita entre os especialistas e a de Wright (2000), o qual identifica 3 tipos de estresse:
Já Albrecht em 1990, define o estresse de origem emocional em 4 (quatro) tipos:
É importante ressaltar, que além de todos estes fatores potencializadores do estresse, os aspectos individuais, bem como os culturais e sociais devem ser levados em consideração (de Abreu et al, 2002).
Em relação ao estresse, percebe-se que o mesmo evento pode ter diferentes reações nas pessoas, isto é chamado pelos especialistas de coping. Além disso, esse evento pode ser estressante para a pessoa num dado momento e em outro não. Tudo depende da forma com que a pessoa percebe o evento ocorrido, interpreta e reage ao mesmo.
Na década de 90 especialistas japoneses detectaram pessoas apresentando sintomas muito parecidos com o estresse, porém estudos mais detalhados indicaram que esses sintomas ficavam restritos ao ambiente de trabalho. Essa nova sintomatologia recebeu o nome de Burnout. É importante esclarecer que estresse é diferente Burnout em vários aspectos, como esclarece Ferreira (2002) em sua dissertação. O quadro abaixo apresenta as sintomatologias de cada uma dessas doenças, deixando claro suas características:
BURNOUT |
STRESS |
- é uma defesa caracterizada pela desistência |
- caracteriza-se pelo super envolvimento |
- as emoções tornam-se embotadas |
- as emoções tornam-se hiper-reativas |
- o principal dano é emocional |
- é físico |
- a exaustão afeta a motivação e a iniciativa |
- a exaustão afeta a energia física |
- produz desmoralização |
- produz desintegração |
- pode ser mais bem entendido como uma perda de ideais e esperança |
- como uma perda de combustível e energia |
- a depressão é causada pela mágoa engendrada pela perda de ideais e esperança |
- a depressão é causada pela necessidade do organismo de se proteger e conservar energia |
-produz uma sensação de abandono e desesperança |
- produz uma sensação de urgência e hiperatividade |
- produz paranóia, despersonalização e desligamento. |
- produz desordens associadas ao pânico, fobias e ansiedades. |
- Não mata, mas pode fazer com que uma vida longa pareça não valer a pena ser vivida. |
- pode matar prematuramente, e o indivíduo não terá tempo para concluir o que começou. |
Tendo apresentado o panorama geral sobre o estresse, passaremos a seguir a apresentar a maneira pela qual nossa pesquisa foi realizada. Desta forma, explicitaremos os sujeitos do estudo, os materiais utilizados, os locais visitados e os procedimentos adotados para a realização do mesmo.
A Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), tem um total de 3.453 servidores em todo o estado. O universo da pesquisa restringiu-se aos servidores que trabalhavam em Cuiabá (1.573 funcionários). Delimitamos nossa amostra a 7% do total de funcionários de Cuiabá, o que significou 108 servidores, sendo 54 do sexo masculino e 54 do feminino.
O Plano de Carreira dos Profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde – SUS – está dividido em quatro (04) grandes cargos que são: Profissional de Nível Superior do SUS, Técnico do SUS, Assistente do SUS e Apoio do SUS. Os representantes de cada uma dessas categorias profissional foram contemplados para serem entrevistados. A pesquisa foi realizada em seis unidades da SES-MT. Porém é importante ressaltar que a seleção dos profissionais entrevistados foi aleatória, porém foi respeitado, obviamente, o desejo e a disponibilidade dos mesmos em responder o questionário e o inventário. Assim, no primeiro contato pessoal com o entrevistado tinha a finalidade de estabelecer rapport1 com ele com vistas a explicar os objetivos da pesquisa, a importância desta, bem como da ética e do sigilo na pesquisa. Informava ainda sobre a forma de preenchimento do Teste de Inventário.
Visando facilitar o entendimento dessa seleção, apresentamos abaixo, na Tabela 1, a distribuição de nossa amostra, segundo o cargo, o regime de trabalho e o sexo:
Cargos do SUS |
Período |
Período |
Meio |
Chefe |
Não Chefe |
||
Profissional de Nível Superior |
6 Homens |
6 Homens |
6 Homens |
Técnico do SUS |
– |
6 Homens |
6 Homens |
Assistente do SUS |
– |
6 Homens |
6 Homens |
Apoio do SUS |
– |
6 Homens |
6 Homens |
Sub-Total |
12 |
48 |
48 |
Total Geral |
108 |
||
Os instrumentos utilizados na coleta dos dados, foram o Teste de Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de LIPP (ISSL)2 e um questionário elaborado por nós. O Teste serviu para detectar se a pessoa estaria estressada, e, se sim, em qual fase se encontrava e qual a sintomatologia (física/psicológica) predominante. O Teste era preenchido pelo próprio entrevistado, cabendo a nós a transcrição dos dados de Identificação desse servidor e a pontuação que obteve para a Folha de Resposta do ISSL.
O questionário, composto de 09 questões, traçou o perfil dos sujeitos da amostra e detectou as possíveis causas do estresse, para esta amostra.
A tabulação do Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (2000), obedeceu às normas de correções definidas no Manual de Inventário de Sintomas de Stress para Adultos. E as respostas obtidas na pesquisa foram lançadas no programa de computador Epi-Info, que compilou os dados. Desta forma, poderíamos obter os resultados mais precisos do que se forem feitos manualmente.
Resultados
Do total de 108 Servidores de Estado de Saúde entrevistados, 65 (60,1%) apresentaram estresse em relação a 43 (39,9%) que não apresentaram. Ou seja, mais da metade está estressada, conforme apresentado em gráfico:

Este resultado pode ser explicado através da pesquisa de Smith (1977), citado por Albrecht (1990), que constatou que entre as dez profissões mais estressantes, quatro são da área de saúde: técnicos, enfermeiros, técnicos de laboratório e os auxiliares de enfermagem. Assim como, as 3 profissões da saúde que mais sofrem de estresse de encontro são: médicos, assistentes sociais e psicoterapeutas.
É interessante verificar que todas essas ocupações descritas acima, como altamente estressantes, fizeram parte da amostra pesquisada, o que por um lado pode justificar os 60,1% estressados.
Quanto às fases do estresse, a que mais sobressaiu com 80% do total de servidores estressados foi a da resistência, que é a fase intermediária e ocorre quando o estressor continua presente por períodos maiores, conforme tabela abaixo:
Fases do Estresse |
Estresse |
|
Sim |
||
nº |
% |
|
Alerta |
06 |
9,3 |
Resistência |
52 |
80,0 |
Quase Exaustão |
04 |
6,1 |
Exaustão |
03 |
4,6 |
Total |
65 |
100 |
Este dado está em consonância com o resultado das pesquisas de Silva (1992), de Soares (1990), e a de VIDOTTO em 1998, nas quais constatou-se que a maioria das pessoas se encontrava na fase da Resistência.
Ainda, em relação ao sexo, constata-se que a maior incidência de estressados está em pessoas do sexo feminino (57,0%), do que no masculino (43,0%), conforme Gráfico 2.
O resultado seguiu o mesmo caminho do obtido em outras pesquisas realizadas no Brasil, como por exemplo os realizados por Soares, 1990; Silva, 1992; Molina, 1996, e Andrade et al em 1999, entre outros, nas quais o sexo feminino apresentou nível de estresse mais alto do que o masculino.
Uma justificativa para esses resultados pode ser amparada no duplo papel que as mulheres desempenham e pelas situações em que elas são acometidas como tensão pré-menstrual, gravidez, menopausa ( Witkin-Lanoil, 1985).
Todos esses fatores ainda devem ser associados à cobrança que as mulheres fazem a si mesmas em relação a serem excelentes profissionais, mães, esposas e donas de casa. Estas também se culpam, muitas vezes, por trabalhar fora e dedicar menos tempo aos familiares, realizando atividades extras para tentar suprir essa falta. Isso tudo evidencia o quanto as mulheres estão atualmente vivenciando conflitos por tentar desempenhar vários papéis simultaneamente, o que conseqüentemente pode justificar um maior índice de estresse como visto na pesquisa.
O interessante em relação ao tipo de sintomatologia é verificarmos que os sintomas psicológicos acometeram mais o sexo masculino com 64,3% enquanto os físicos acometeram mais o sexo feminino com 64,9%, conforme gráfico abaixo:

Este resultado divergiu dos encontrados por Soares (1990), que encontrou que os sintomas físicos prevaleceram no sexo masculino, enquanto os cognitivos/psicológicos no feminino.
Relacionando o estresse com outras variáveis, a começar pela carga horária, constatamos que há uma tendência de que as pessoas que trabalham Período Integral tenham mais estresse (58,5%) do que as que trabalham meio período (41,5%), de acordo com Tabela 3 a seguir:
Período |
Nº Total |
% Total |
Nº Stressados |
|
nº |
% |
|||
Integral |
60 |
55,5 |
38 |
58,5 |
Meio Período |
48 |
44,5 |
27 |
41,5 |
Total |
108 |
100 |
65 |
100 |
Mais uma vez nossos resultados divergiram dos encontrados na literatura. A pesquisa realizada por Vidotto (1998) com 33 professores de graduação em Administração na cidade de São Paulo, encontrou que os professores full-time apresentaram 54% de estresse em relação aos part-time 60%. Ele justificou seu achado afirmando que na verdade os professores de meios períodos terminam por realizarem duplas jornadas de trabalho em locais diferenciados.3
Entretanto, tais resultados encontrados em nossa pesquisa coincidiram com a afirmação de Carvalho & Serafim (1995), que referem que as pessoas que trabalham full-time ficam mais estressadas do que as que trabalham meio período, porque ficam sem tempo para si mesmas. Aplicamos o teste de Qui-Quadrado X 2 para conferir a confiabilidade de nossos resultados com relação a jornada de trabalho e não este se mostrou estatisticamente significativo, o que não nos permite ir além de conjecturas ora feitas. Desta forma, embora tenhamos observado em nosso estudo que as pessoas que trabalham tempo integral são mais estressadas do que aquelas que trabalham meio período, este resultado não é conclusivo.
Em relação ao cargo ocupado, o estresse sobressaiu nos Técnicos e Apoio do SUS, ambos com 66,7%, seguidos dos Profissionais de Nível Superior com 58,3% e Assistente do SUS com 50,0%, conforme gráfico abaixo:
Tais resultados nos dá forte indicação de que há uma inter-relação entre o estresse X salário nesta amostra pesquisada, pois o Apoio do SUS é o cargo de salário mais baixo dentro da referida Secretaria, e depois vem o Assistente. Porém, os assistentes, desde a implantação do Plano de Carreira dos Profissionais do Sistema Único de Saúde – SUS, publicado na Lei 7. 360 de 14/12/2000, se sentem satisfeitos com o salário, diferentemente dos Técnicos do SUS, que desde aquela época até os dias atuais se sentem desvalorizados e injustiçados em relação ao plano, achando que a lei foi injusta com eles.
Percebemos que tanto os Apoios como os Técnicos do Sistema Único de Saúde acham que os seus salários estão baixos e incompatíveis com as atividades que realizam.
A essa mesma conclusão chegou Silva (1992), em que a política salarial e a remuneração incompatível com os deveres e responsabilidades -foram considerados os maiores fatores estressores. Bomsucesso (1998), salienta que só a necessidade do dinheiro mantém a pessoa trabalhando.
Analisando o estresse com relação à ocupação de cargo comissionado ou não (chefe ou não chefe), constatamos que 66,7% dos chefes estão estressados, o que denota que há uma relação entre ambos. Assumir um cargo de chefia requer mais dedicação, responsabilidade e conseqüentemente mais pressão e sobrecarga. Pelos resultados percebemos que os chefes aumentaram significativamente o nível de estresse entre os Profissionais de Nível Superior, e vale ressaltar que todos os chefes entrevistados na nossa amostra possuem o Curso Superior Completo.
Estresse |
Chefe Período Integral |
Não Chefe Período Integral |
||
nº |
% |
nº |
% |
|
Sim |
08 |
66,7 |
05 |
41,7 |
Não |
04 |
33,3 |
07 |
58,3 |
Total |
12 |
100 |
12 |
100 |
Segundo pesquisa realizada por Fajardo & Marinuzzi (1994) em várias organizações em Minas Gerais, nos anos de 1991 e 1992 com 1000 executivos, revelou que o estresse apareceu em primeiro lugar nos exames completos que estes fizeram com 74,5%. No eixo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina, Couto (1997) relata que de cada 100 executivos/gerentes, 45 apresentam alto nível de estresse e 28 leve ou moderado. Albrecht (1990, p. 109), salientou que os empregados não sentem a mesma pressão que os chefes. Os gerentes e chefes “enfrentam problemas, pressões e até exigências de seus subordinados, além da pressão das exigências feitas por seus superiores”.
Ainda em relação ao cargo, Lipp (2000), mostra que “não há mais dúvida. A ocupação das pessoas pode causar stress e stress causa doença”
Estes dados estão em consonância com os apresentados por Albert & Ururahy (1997), Albrecht (1990), Couto (1997) e Silva (1992) em suas pesquisas, onde os executivos, gerentes e chefes apresentam altos índices de estresse. Os mesmos estão sempre enfrentando problemas, pressões, incertezas, exigências e reclamações, tanto dos seus superiores como dos subalternos.
Quanto ao estado civil, o estresse sobressaiu nos casados com uma diferença pequena dos divorciados de 64% para 60%; os solteiros com 57,1%, os amasiados com 50% e outros com 33,3%.
Devemos observar em relação ao estado civil, que a diferença é grande quando comparamos o número bruto dos estressados casados, 39, para os demais que são 12 solteiros, e 9 divorciados estressados. Desta forma, o número de casados estressados é bem significativo. Podemos atribuir este dado ao fato de os casados terem mais preocupações e responsabilidades perante si próprio e principalmente em relação aos seus familiares.
Os resultados acima estão em consonância com a maioria das pesquisas ( Silva, 1992; França e Rodrigues, 1999 e Couto, 1987, entre outros), que afirmam que os casados são pessoas mais estressadas. Esses pesquisadores explicam que as pessoas casadas são mais compromissadas, têm mais responsabilidades perante os seus familiares, seja afetiva, financeira entre outras, diferente dos solteiros. Percebemos que a situação entre os casados ainda piora podendo aumentar o nível de estresse, quando o relacionamento familiar não é agradável e o indivíduo tem obrigações e nenhum prazer ou vontade de voltar para casa – se refugiando, cada vez mais, no trabalho.
No que diz respeito ao estresse, há uma tendência em relacionar a realização de atividades extra-trabalho com a redução no nível de estresse. Autores como Boucher e Binette (1996) e Chiavenato (1999), por exemplo, são categóricos ao afirmar que atualmente é necessário termos qualidade de vida, preocuparmo-nos com a alimentação, realizarmos exercícios físicos, relaxamento e lazer, ou seja, – atividades que nos possibilitam extravasar questões do cotidiano a fim de não somente pensar em trabalhar.
Porém, devemos ter cuidado na escolha da atividade realizada, pois não é qualquer atividade que reduz o estresse, o estudo, por exemplo, sobrecarrega ainda mais o indivíduo, causando aí o estresse, como mostra o gráfico 5 abaixo:

Como podemos observar acima, 43,0% do total de servidores estressados da SES-MT responderam que “freqüentemente e sempre” tinham tempo para realizar atividades extra-trabalho e, os que responderam “às vezes, raramente ou nunca” tinham tempo rara realizar outras atividades fora trabalho correspondem a 57,0%. A primeira vista, percebemos que as pessoas que dizem terem freqüentemente tempo para realizarem outras atividades extra trabalho são menos estressadas do que as que raramente ou nunca têm tempo para outra atividade. Porém é preciso pesquisar sobre o tipo de atividade que essas pessoas realizam para avaliar com mais precisão essa querela.
O presente estudo teve por objetivo avaliar o nível de estresse dos servidores da Secretaria de Estado de Saúde, e quais os fatores causadores.
Considerando as fontes de estresse encontradas na amostra, podemos concluir que variáveis como sexo, estado civil, cargo ocupado, período trabalhado, ocupar cargo comissionado e realizar atividades extra-trabalho interferem no nível de estresse, porém essa interferência aumenta muito segundo as combinações dessas variáveis. Por exemplo, a mulher casada, que trabalha período integral, ocupando cargo de chefia, apresenta mais estresse do que um. homem solteiro, que trabalha meio período, não ocupando cargo de chefia. Ou seja, o nível de estresse ainda é maior na mulher, mesmo que ela ocupe o mesmo cargo e que tenha a mesma jornada de trabalho. Desta forma, este resultado nos permite concluir que o estresse sobressaiu nas mulheres que são casadas, que trabalham Período Integral, ocupam cargo comissionado, realizam atividades extra como o estudo e também nas que ocupam cargos de Técnico e Apoio do SUS na Secretaria.
Assim sendo, a conclusão de nosso estudo é que o nível de estresse entre os servidores da Secretaria de Estado de Saúde de MT atinge mais da metade desses servidores, e mais, quase 90% dos servidores que apresentam estresse já estão na fase de resistência (a segunda das quatro fases existentes).
O motivo, ou agente causador, para esse alto índice de estressados precisa ser entendido como uma conjuntura de fatores, os quais, quando somados uns aos outros, tecem uma sólida rede que favorece o surgimento do estresse. Esses fatores já foram apontados na análise dos dados e na introdução desta conclusão, quais sejam, o sexo, estado civil, cargo ocupado, ocupar cargo comissionado, período trabalhado e realizar atividade extra-trabalho.
Por outro lado, fatores como relação com a chefia ou ambiente de trabalho parecem não serem fatores geradores de estresse, já que não foi possível estabelecer relação entre esses fatores e a presença do estresse.
No final desta conclusão, seria interessante pontuarmos a importância de estarmos atentos aos sintomas do estresse para dele podermos nos proteger, tendo em vista que a sua prevenção parece passar muito mais pelo equilíbrio entre fatores psicológicos e físicos do que por fatores ambientais. ▲
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1 Rapport é conseguir estabelecer uma relação de equilíbrio no diálogo, ouvindo e escutando, em um processo de mão dupla. Para um bom rapport, importa não só o que é dito (conteúdo verbal), mas também entonações, postura física e expressões não-verbais, como gestos e movimentos, que devem ser receptivos e agradáveis, levanbdo a uma total sintonia com o interlocutos.
2 Instrumento elaborado e padronizado pela Dra. Marilda Lipp em 2000.
3 Full-time refere-se às pessoas que trabalham período integral e part-time à meio período
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