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Artigos
Celso Almeida da NatividadeMestre em Administração e Mestre em Educação, Administração e Comunicação pela Universidade São Marcos. Professor da Universidade São Marcos, da Faculdade Campos Elíseos – FCE celsonatividade@ig.com.br

A ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA NOS CURSOS DE ADMINISTRAÇÃO

Resumo
Este artigo sintetiza a importância Administração Financeira na formação do administrador moderno. Seu objetivo é de apresentar o campo de estudo dentro de duas perspectivas: a administração financeira na atualidade das organizações e opiniões e resultados de pesquisas sobre a Administração Financeira.

Palavras-chaves: Finanças; Administração Financeira.

Abstract
This paper synthesizes the role of the modern Financial Administrator. The aim of it is to discuss the study field according two different perspectives: the finance administration of the organizations nowadays and the opinions and research results about finance administration.

Keywords: Finance Administration

O CAMPO DE ESTUDO

A Administração Financeira pertence ao campo de finanças.  Este campo de estudo é amplo e dinâmico podendo ser definido como a parte da ciência responsável pela administração de recursos financeiros de indivíduos e organizações, no qual o processo de transferência de fundos constitui-se na parte central do tema (Gitman, 2003; Melicher e Norton, 2003; Lasher, 2003).
O campo de finanças envolve suas áreas: serviços financeiros a administração financeira ou finanças de empresas (Gitman 2003; Gitman e Madura, 2003). Deve ser registrado que há autores que apresentam o campo de finanças em áreas como: mercado monetário e de capitais; investimentos, e administração financeira (Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999; Brigham e Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000); instituições e mercados; investimentos; e administração financeira (Melicher e Norton, 2003); investimentos; mercados financeiro e intermediários; e administração financeira (Emery, Finnerty, Stowe (1998); e ainda em investimentos e mercados; e administração financeira (Lasher, 2003). Entretanto as primeiras áreas apresentadas por esses autores correspondem à de serviços financeiros  de Gitman e Gitman e Madura. Adotaremos então as áreas utilizadas por esses dois autores.
As áreas de serviços financeiros e administração financeira possuem características próprias, entretanto, elas não operam isoladamente, mas ao contrário, elas interagem uma com a outra (Melicher e Norton 2003; Emery, Finnerty, Stowe 1998;  Lasher 2003)
A área de serviços financeiros é responsável pela prestação de assessoria e venda de produtos financeiros a indivíduos e organizações. O quadro 1 a seguir mostra as principais oportunidades profissionais nessa área.

Quadro 1: Principais oportunidades profissionais em serviços financeiros

Posição Descrição da posição

Bancos e instituições similares


  • analista de crédito: analisa a possibilidade de concessão de crédito aos clientes.
  • gerentes de bancos : administram agência e vendem produtos de serviços financeiros.

Planejamento definanças pessoais

 

 


  • consultoria financeira: presta serviços de aconselhamento pessoal sobre Administração de finanças pessoais relativa a orçamento, impostos, investimentos, bens imóveis, seguros,fundos de pensão e planejamento de espólio

 

 Investimentos


  • corretoras de títulos e valores mobiliários: assessoram seus clientes na escolha, compra e venda de títulos. Intermedeiam a compra e venda de títulos
  • administração de carteiras: estrutura e administra carteiras de títulos para indivíduos e organizações.
  • bancos de investimento: assessoram e intermedeiam empresas emitentes de novas ações, assessoram na união com outras empresas.

Seguros


  • corretores de seguros: desenvolvem produtos de seguros, avaliam riscos que a sociedade seguradora irá segurar, fixa prêmios, vendem apólices, executam liquidação de sinistros
Fonte: Construído pelo autor com base em Gitman (2003); Gitman e Madura (2003); Brigham, Gapenski e Ehrhardt (1999); Brigham e Houston (2004); Weston e Brigham (2000); Emery, Finnerty e Stowe (1998)

Nota-se por meio do quadro que a área de serviços financeiros gera oportunidades de carreiras profissionais em bancos (e instituições similares); planejamento de finanças pessoais; de investimento de recursos financeiros e de seguros. A maioria dos profissionais de finanças está empregada neste setor (Bodie e Merton, 1998).
A área de administração financeira ou finanças de empresas é responsável pela administração dos recursos financeiros das organizações. Esta área envolve fundamentalmente a realização de planejamento, análise e concessão de crédito a clientes, análise de projetos de investimento, administração de ativos, e captação de fundos para financiar as atividades da empresa.  (Gitman, 2003; Melicher e Norton, 2003). O quadro 2 a seguir mostra as principais oportunidades profissionais em administração financeira.

Quadro 2: Principais oportunidades profissionais em administração financeira
Posição Descrição da posição

 Analista financeiro

 


  • Seu trabalho principal é elaborar e analisar planos financeiros e orçamentários das organizações. Estuda as diretrizes da estrutura de capital, política de dividendos, análise de união.   Também realiza tarefas de previsão financeira, análise  financeira  e trabalho em conjunto com a contabilidade.

 Analista/gerente
 de investimentos


  • Avalia e recomenda propostas de investimentos em ativos e pode envolve-se  com aspectos financeiros  da implantação dos investimentos aprovados

 Gerente de
 Financiamentos


  • Atividade restrita a grandes empresas. Obtém financiamento para investimentos aprovados, coordena consultores; bancos de investimento  e assessores jurídicos

 Gerente de caixa

 


  • Controla diariamente o saldo de caixa da empresa, gerencia a cobrança, contas a pagar, investimentos e financiamentos de curto prazo e mantêm relacionamento com bancos.

 Analista/gerente  de crédito


  • Avalia as solicitações de crédito decidindo sobre elas. Monitora a cobrança das contas a receber.

Gerente de câmbio


  • Gerencia operações internacionais e exposição da empresa a flutuações da taxa cambial.
Fonte: Construído pelo autor com base em Gitman (2003); Gitman e Madura (2003); Brigham, Gapenski e Ehrhardt (1999); Brigham e Houston (2004); Weston e Brigham (2000); Melicher e Norton (2003); Emery, Finnerty e Stowe (1998).

Por meio do quadro é possível notar que a área de administração financeira gera oportunidades de carreiras profissionais na área financeira de todos os tipos de organizações.
O setor de administração financeira é mais amplo que o de serviços e contêm o maior número de oportunidades de emprego, sendo importante para todos os tipos de organizações, como bancos e instituições similares, empresas industriais, comerciais, de serviços, públicas, privadas, grandes, médias, pequenas, com ou sem fins lucrativos. Entretanto, independente da área de atuação, o profissional de finanças deve conhecer as duas áreas, serviços e administração financeira, pois elas interagem entre si e, consequentemente, para ter sucesso em seu trabalho. (Brigham e Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999;  Melicher e Norton, 2003; Emery, Finnerty e Stowe, 1998).
A Administração Financeira nos cursos de graduação em Administração envolve as disciplinas de contabilidade geral, contabilidade de custos, contabilidade gerencial, controladoria, economia, análise das demonstrações financeiras, orçamento empresarial, matemática financeira, mercado financeiro e de capitais, administração financeira (ou finanças de empresas), bem como outras que com ela se relacionem (Braga, 1991).

A ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA NAS ORGANIZAÇÕES

Um breve retrospecto da área de administração financeira ou finanças de empresas mostra que em seus primórdios ela foi considerada como parte do estudo das Ciências Econômicas  (Assaf Neto, 2003). Passou a ser uma  área independente de estudo no início de 1900 envolvendo os instrumentos financeiros, as instituições financeiras e o funcionamento do mercado de capitais (Van Horne, 1974). Nessa ocasião foram enfatizados os aspectos das fusões, constituição de novas empresas e os tipos de títulos que as organizações poderiam emitir para levantar recursos financeiros (Brigham e Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999; Block e Hirt, 2002).
Na década de 1920 houve o surgimento de novas indústrias e inovações tecnológicas gerando a necessidade de recursos financeiros pelas empresas. A ênfase de finanças estava voltada à liquidez e ao financiamento de empresas (Van Horne, 1974).
Na década de 1930, durante a depressão da economia americana, a ênfase de finanças de empresas estava na falência, concordata, reorganização, liquidez empresarial e regulamentação dos mercados de títulos. Na década de 40 e início de 1950 finanças de empresas continuava sendo ensinada como matéria descritiva e institucional sendo examinada mais do ponto de vista externo da empresa como de um fornecedor de fundos, do que do ponto de vista de um gestor, não enfatizando a tomada de decisões interna (Brigham e Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999; Block e Hirt, 2002) .
Van Horne e Wachowicz Jr. (1998) acrescentam que até ao redor de 1950 a administração financeira estava fundamentalmente envolvida com a captação de recursos financeiros e administração do caixa da empresa.
No final da década de 1950 iniciou-se a ampliação da análise teórica sendo que o foco de estudo de finanças de empresas se deslocou para decisões administrativas em relação à escolha de ativos e passivos com o objetivo de maximização do valor da empresa (Brigham e Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999; Block e Hirt, 2002). Tornou-se então uma ciência com o propósito de entender as causas e consequências das transações financeiras. Nessa época teve início o uso do computador como instrumento de análise, fato que muito contribuiu para o desenvolvimento de finanças. (Van Horne, 1974). Nesse mesmo período o aumento da aceitação dos conceitos do valor presente motivou a expansão das responsabilidades da administração financeira a tornar-se interessada na seleção de projetos de investimento de capital (Van Horne e Wachowicz Jr., 1998).
Na década de 1980 a análise incluiu os efeitos da inflação nas decisões organizacionais e também a área de serviços financeiros, a utilização de computadores para análises, e a consideração da globalização das empresas (Brigham e Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999).
Durante a década de 1990 as três tendências mais significativas foram referentes à contínua globalização dos negócios, ao aumento na utilização da tecnologia da computação e a maximização do valor da empresa que recebeu maior ênfase durante essa década devido a mais empresas passarem a implementar planos de remuneração ligando os bônus dos gestores e empregados à geração de valor. Os autores previnem que essas tendências continuarão nos anos vindouros (Brigham e Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999). Outra tendência em finanças é a reestruturação e reorganização empresarial que envolve falências, concordatas, uniões, aquisições e encerramento de linhas de atividades (Emery, Finnerty e Stowe, 1998).
No final da década de 1990 a ênfase de finanças de empresas era sobre as formas de orçar os recursos escassos e investi-los em ativos ou projetos que apresentam o melhor rendimento financeiro, considerando ainda: seu risco, a determinação da proporção adequada entre os financiamentos por meio de obrigações e de ações e a uma correta política de dividendos ( Groppelli; Nikbakht, 1998).
Na década de 2000 a globalização das atividades das organizações americanas tem gerado elevação de suas vendas, compras, investimentos e captação de fundos em outros países, e por outro lado, empresas estrangeiras têm aumentado essas atividades nos EUA. Como conseqüência tem havido nos EUA a necessidade de administradores financeiros capacitados a gerir fluxos de caixas em diferentes moedas e protegê-las dos riscos que advém, de transações internacionais (Guitman, 2003).
Observa-se a partir dos comentários desses autores que a administração financeira ou finanças de empresas, desde seus primórdios até a atualidade, vem evoluindo de maneira a atender à crescente complexidade assumida pelas organizações e operações de mercado, e os profissionais dessa área devem estar capacitados para enfrentar os desafios oriundos dessa carreira profissional.
O grau de importância da função financeira se relaciona com o tamanho da organização. Em organizações de pequeno e médio porte as funções financeiras geralmente estão sob a responsabilidade de um dos sócios (Braga, 1989). Nas empresas maiores as funções financeiras são desempenhadas por um departamento financeiro. A figura 1 apresenta a estrutura organizacional básica de uma empresa sociedade anônima, destacando a função financeira.

Figura 1: Organograma de uma sociedade anônimaFig 1
Fonte: Construída pelo autor com base em Sanvicente (1987); Braga (1989); Van Horne e Wachowicz Jr. (1998); Brealey e Myers (2003 : 7); Gitman (2003); Groppelli e Nikbakgt (1998); Brigham e Houston (2004); Weston e Brigham (2000); Brigham, Gapenski e Ehrhardt (1999); Ross, Westerfield, Jaffe (2002); Gitman e Madura (2003).

Observa-se na figura que no topo estão os acionistas. Eles são os proprietários da empresa. Logo abaixo está o conselho de administração. Trata-se de um grupo composto por pessoas-chave da empresa e por pessoal externo e executivos bem-sucedidos de outras grandes organizações, com autoridade máxima para decidir sobre assuntos da empresa e formular sua diretriz geral.
A seguir estão os administradores, iniciando com o executivo principal, o presidente ou Chief Executive Officer – CEO – numa grande empresa americana. Ele se reporta ao conselho de administração e é responsável pela administração diária da empresa e pela execução das diretrizes estabelecidas pelo conselho de administração. Agregando-se a ele estão os diretores executivos encarregados das finanças, do marketing, dos recursos humanos, de produção, etc . O executivo de finanças ou Chief Financial Officer – CFO  – numa grande empresa americana é responsável por todas as funções financeiras da organização,  havendo dois departamentos subordinados a ele dos quais recebe apoio técnico: tesouraria e controladoria. Abaixo desses departamentos encontram-se as suas principais atividades.
O tesoureiro é o principal administrador financeiro. Ele administra o capital de giro, mantém relações com a comunidade de investidores externos, e administra a exposição da empresa à inflação e a riscos de taxas de juros. O controler é o contador chefe. Ele supervisiona as atividades de contabilidade, auditoria interna e impostos, inclusive a preparação de relatórios internos, comparando o que foi planejado com os custos, receitas e lucros reais (Bodie e Merton, 1998;  Gitman e Madura, 2003; Emery, Finnerty e Stowe, 1998).
As atividades do tesoureiro ou administrador financeiro representam o assunto principal deste artigo. Entretanto deve ser reconhecido que indivíduos também estão continuamente envolvidos em administrar suas finanças pessoais (Melicher e Norton, 2003 : 3; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999 : 5; Brigham e Houston, 2004 : 5). Como exemplo podemos citar a administração do fluxo de caixa, investimentos de recursos financeiros, e a   realização de empréstimos e  financiamentos. 
As atividades fundamentais do administrador financeiro podem ser agrupadas em realizar análises e planejamento financeiro, tomar decisões de investimento e tomar decisões de financiamento relativas ao uso eficiente dos recursos financeiros nas atividades da organização (Gitman, 2003; Brigham; Houston, 2004; Weston e Brigham, 2000; Brigham; Gapenski; Ehrhardt, 1999; Ross; Westerfield; Jaffe, 2002; Melicher e Norton, 2003; Emmery, Finnerty e Stowe, 1998).
A análise e planejamento financeiro se utiliza das  demonstrações  financeiras para avaliar o fluxo de caixa da empresa a fim de elaborar planos e orçamentos visando a assegurar recursos financeiros disponíveis no montante adequado, no momento certo e ao menor custo. As decisões de investimento determinam a composição e os tipos de ativos da empresa em que serão aplicados recursos financeiros necessários para as atividades operacionais. As decisões de financiamento determinam a composição e os tipos de passivos que serão utilizados para obtenção de recursos financeiros necessários à execução das atividades operacionais. É possível afirmar que a função financeira se materializa no cotidiano das empresas envolvendo as três atividades fundamentais do administrador financeiro.
Há também opiniões de outros autores sobre as atividades fundamentais do administrador financeiro. Van Horne e Wachowicz Jr. (1998) comentam que a função decisão do administrador financeiro é investimento, financiamento e administração de ativos, sendo que esta exige a administração eficiente dos ativos e uma preocupação maior com os ativos correntes do que com os ativos fixos. Damodaran (1999) preserva as decisões de investimento e financiamento e adiciona a de dividendos que defende a devolução de fundos aos proprietários da empresa se não há investimentos que gerem retorno superior a taxa mínima aceitável para investir recursos em um projeto.
Devemos considerar que essas atividades fundamentais devem ser desenvolvidas pelo administrador financeiro conforme as determinações dos proprietários da empresa e devem ser orientadas ao objetivo principal da função financeira que é a maximização do valor da empresa. Consequentemente qualquer decisão financeira que aumente o valor da empresa é considerada boa, enquanto aquela que reduz o valor da empresa é considerada ruim (Damodaram, 1997; Block e Hirt, 2002; Lasher, 2003).
O objetivo do trabalho do administrador financeiro numa organização com fins lucrativos deve ser o de contribuir para a maximização do valor da empresa ou do preço de suas ações, fator essencial para assegurar o sucesso e sobrevivência da organização e aumentar a riqueza de seus proprietários. Deve ser lembrado que as ações voltadas para a maximização do valor da empresa beneficiam a sociedade, pois exigem: fábricas eficientes e tecnologicamente atualizadas que produzam produtos e serviços de alta qualidade ao menor custo possível; atendimento eficiente e cortês, estoque de mercadoria adequado e estabelecimentos bem localizados (Brigham e Houston, 1999; Weston e Brigham, 2004; Brigham; Gapenski; Ehrhardt, 1999; Melicher e Norton, 2003).
No entanto em organizações sem fins lucrativos o objetivo do trabalho do administrador financeiro é fornecer um desejável nível de serviços a custos aceitáveis e desempenha as mesmas funções do administrador financeiro em organizações que possuem o objetivo de lucro (Melicher e Norton, 2003). 

OPINIÕES E RESULTADOS DE PESQUISAS SOBRE A ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA

A função financeira é a que de forma mais clara possui uma visão global da empresa. Esse fato pode ser verificado de maneira mais nítida quando a administração da empresa utiliza orçamentos, pois nesse caso o planejamento e o controle operacional e financeiro ficam sob a supervisão da administração financeira, mais precisamente do setor de orçamentos (Sanvicente, 1987).
Sousa (1989 enfatiza a importância do administrador financeiro na atividade empresarial e na administração pública da economia contemporânea, lembrando que numa economia instável como a brasileira, “aumenta significativamente a participação, o envolvimento e, sobretudo, a responsabilidade do administrador financeiro em todo o processo econômico.”  Para ele, o administrador financeiro deve refletir sobre sua responsabilidade perante o consumidor, o fornecedor de recursos financeiros, humanos e materiais. Portanto, esse profissional necessita de compreensão abrangente sobre a interação da organização que ele administra com as dimensões econômicas e sociais. 
Em trabalho realizado por Braga (1991) para avaliar a qualidade do ensino das disciplinas da área de Administração Financeira nos cursos de graduação em Administração, por meio de levantamento de opinião junto a professores e a executivos financeiros, os principais dados obtidos mostram que:

  1. a maior parte dos professores e executivos considerou que as disciplinas da área de Administração Financeira e Orçamentária são ministradas superficialmente, dissociada da realidade empresarial brasileira e com insuficiente carga horária;
  2. os professores registraram o despreparo dos alunos ingressantes nos cursos de graduação em administração e a sua reduzida dedicação aos estudos durante o curso;
  3. os professores salientam que a carência de material didático adequado à realidade brasileira e de bons estágios aos estudantes compromete o desenvolvimento da parte prática  de suas disciplinas;
  4. os executivos, ao avaliar seus próprios cursos de graduação, apontaram praticamente as mesmas deficiências destacadas pelos professores (itens b e  c);
  5. os executivos apontaram deficiências decorrentes da má qualidade dos cursos de graduação em Administração no tocante à formação acadêmica de seus funcionários: fraca base conceitual, raciocínio lógico deficiente, ausência de conhecimentos práticos, falta de iniciativa e de determinação. Complementaram que essas deficiências costumam ser sanadas após alguns anos de trabalho na área de finanças, concomitantemente a programas de treinamento interno e cursos de extensão universitária;
  6. uma pequena minoria de professores constatou que seus alunos formandos estão preparados para os desafios profissionais da área de finanças.

A partir desses dados, o autor sugere às IE’s de graduação em Administração que deveriam ter como objetivo a formação de profissionais competentes para as empresas, que poderiam reduzir o tempo e investimentos de sua adaptação ao trabalho. Para isso seria necessário uma integração entre escolas e empresas, deixando de atuar de forma isolada.
Fica evidente que o ensino das disciplinas da área de Administração Financeira nos cursos de graduação em Administração deveria ser reformulado, visando à sua adequação à realidade empresarial brasileira.
De acordo com Mucillo Netto (1991, p. 1), várias áreas da empresa influenciam nas decisões de finanças:

  1. a área de produção influencia e condiciona decisões sobre processos tecnológicos, aquisição de máquinas e equipamentos, expansão da planta industrial, estocagem de matérias-primas e produtos acabados;
  2. a área de marketing influencia e condiciona decisões sobre preços, prazos de recebimento de clientes, gastos em pesquisa e propaganda, investimentos em pontos de distribuição etc;
  3. a área de compras negocia pagamentos à vista ou a prazo, decisões de estocagem em volumes maiores ou menores etc;
  4. as demais áreas, como recursos humanos e sistemas, condicionam decisões de gastos em equipamentos de treinamento, computadores, recursos audiovisuais etc.

Pode-se afirmar pelos comentários desse autor que o tamanho e a composição do ativo de uma empresa, em grande parte, são determinados por decisões de áreas não-financeiras. Todavia, as finanças constituem o instrumento que impulsiona essas decisões.
O Financial Executives Institute, organização americana de executivos empresariais especializados em finanças, define o executivo de finanças como sendo a pessoa que tenha autoridade, no mínimo, sobre uma das funções financeiras de uma organização. As funções financeiras se relacionam a: planejamento financeiro, provisão de capital, administração de capital de giro, contabilidade e controle, proteção de ativos, administração de impostos, relações com investidores, avaliação e consultoria,  e sistemas de informações gerenciais (Bodie e Merton, 1997).
Van Horne e Wachowicz Jr. (1998) comentam que nos anos 90 Finanças passou a desempenhar um papel estratégico mais vital dentro das sociedades por ações, sendo que o administrador financeiro emergiu como um membro de equipe com o esforço geral de criar valor para a empresa, e nos dias atuais esse profissional deve ter a flexibilidade para adaptar-se às mudanças no ambiente externo para sua empresa sobreviver.
Matias e Rosifini Jr. (1999, p. 6-8) detectaram os fatores de sucesso financeiro na administração de empresas brasileiras no período de 1995 a 1997, utilizando-se de quatro variáveis com os seguintes resultados:

Por meio desses dados é possível afirmar que dentre as empresas pesquisadas, aquelas que apresentam sucesso financeiro em sua administração possuem retorno sobre o capital investido maior, decorrente principalmente de maiores margens líquidas, e de menor nível de despesas operacionais sobre a receita líquida. A necessidade de capital de giro é mantida pela geração própria de recursos, bem como aquelas que possuem maiores níveis de vendas tendem a obter maior sucesso financeiro.
Um artigo da Gazeta Mercantil de 3/7/2001 mostra que atualmente o executivo de finanças está mais próximo das operações da empresa; atua com sistemas de informações gerenciais; aspectos legais e fiscais; circula entre as diversas áreas de uma empresa, como vendas, produção, marketing; e, no geral, o executivo deve conhecer bem o negócio da organização como um todo. O artigo conclui que essa interação possibilita o entendimento de todo processo corporativo e a participação na tomada das principais decisões.
Block e Hirt (2002) comentam que a área de finanças está intimamente relacionada com a economia e a contabilidade e o administrador financeiro necessita entender o relacionamento entre estas áreas. As atividades da administração financeira acontecem sobre o contexto da atividade econômica e as empresas são afetadas pelo estado da economia. Quando a economia está saudável as empresas crescem, o emprego aumenta, o consumo expande e o foco do trabalho do administrador financeiro é sobre a expansão dos ativos para produzir mais mercadorias ou serviços. Quando a economia está em recessão a preocupação do administrador financeiro é com o recebimento das vendas de seus clientes, a demanda para seus produtos, e, consequentemente o declínio ou perda da lucratividade. A contabilidade fornece dados através das demonstrações financeiras e o administrador financeiro deve saber interpretar e usar estas demonstrações na alocação dos recursos financeiros da empresa para gerar o melhor retorno possível.
Os autores concluem seu comentário afirmando que finanças une a teoria econômica com os números da contabilidade, e os administradores de todas as áreas das organizações devem conhecer finanças o suficiente para avaliar o desempenho financeiro da empresa. 
Matias, Candido e Vicente (2002 : 4, 9, 18) criticam as atuais estruturas curriculares de finanças dos cursos de graduação em Administração por não fornecer ao aluno uma visão do ambiente empresarial pois não apresentam uma ligação clara entre as disciplinas dessa área gerando nos alunos confusão de conceitos e nos professores das disciplinas dessa área dificuldade em se posicionar quanto à relevância de suas disciplinas e exemplos utilizados.  Os autores comentam não ser evidenciada de forma clara o conceito de geração de valor nos currículos de finanças, sendo este uma premissa básica e também fundamental para o entendimento da maximização do valor das empresas. Expressam a preocupação do MEC com a formação em Administração, avaliando sua qualidade através do Provão, mas criticam o MEC pela não-formalização do currículo mínimo. Sugerem que, na ausência deste currículo, o conteúdo das questões de Administração Financeira e Orçamentária do Provão poderia ser considerado como conteúdo programático a ser seguido pelas IE’s. Sobre a bibliografia de Administração Financeira, a grande maioria é de origem norte-americana, tendo como estudo empresas de portes médio e grande, geralmente de capital aberto. Entre os autores brasileiros, quase todos apresentam estudos de grandes empresas. Os autores concluem seu trabalho afirmando que a maioria dos cursos adota um livro texto sem as adaptações necessárias à realidade brasileira (inflação, mercado de capitais, custo de capital, taxa de juro, entre outros).
Pode-se verificar uma grande deficiência dessa bibliografia em comparação a realidade brasileira, em que as micro e pequenas empresas representam 93,5%, e as médias e grandes, 6,5% em relação ao número total de estabelecimentos brasileiros (Matias & Lopes Jr., 2002). Esses autores afirmaram ser na área de administração financeira onde ocorre grande parte do insucesso das pequenas empresas (2002).
O administrador financeiro desempenha uma atividade fundamental nas atividades operacionais da organização, pois há aspectos financeiros na maioria das decisões empresariais (Damodaran, 1999; Damodaran, 1997; Melicher e Norton, 2003; Gitman, 2003; Bodie e Merton, 1997; Brigham, Gapenski e Ehrhardt, 1999; Brigham e Houston 2004).  As diversas áreas das empresas como de produção, marketing, logística, recursos humanos, etc. necessitam interagir com o pessoal de finanças para justificar propostas que tenham, pelo menos em parte, méritos financeiros, para conseguir recursos da alta administração. 
Outro importante aspecto da administração financeira envolve o relacionamento entre finanças e outros departamentos na administração diária da empresa (Lasher, 2003).  Finanças tem responsabilidade por suas próprias atividades mas também tem responsabilidade pelas operações de outros departamentos, pois finanças é responsável por dinheiro e outros departamentos também lidam com dinheiro. O autor exemplifica que a tarefa da fábrica é produzir produtos, mas fazer o trabalho envolve manter custos baixos e usar um razoável nível de estoque. Assim se os custos de fabricação são altos demais ou se a empresa possui um alto nível de estoque, finanças é responsável por chamar atenção para esses fatos e assegurar que a ação corretiva seja tomada.
Portanto, nota-se que o departamento de finanças possui responsabilidade geral pela efetiva administração do dinheiro que outros departamentos gastam sendo parte de seu trabalho examinar atividades de outros departamentos para assegurar que eles estão usando dinheiro eficazmente.  
Brigham e Houston (2004), Brigham Gapenski e Ehrhardt (1999) exemplificam que as decisões de marketing podem afetar o crescimento das vendas, o que influencia a necessidade de investimento. Portanto os tomadores de decisões de marketing devem considerar que suas ações afetam e são afetadas por fatores como disponibilidade de fundos, nível de estoques e capacidade de produção.
No tocante a função financeira das organizações Gitman e Madura (2003) possuem a opinião de que ela é continuamente conduzida e integrada pelas funções de produção e marketing, pois estas incorrem em gastos antes de gerar a receita dos produtos ou dos serviços.
Natividade (2003 : 124-126) realizou pesquisa sobre as percepções de professores e de alunos formandos sobre as questões do conteúdo de Administração Financeira e Orçamentária apresentados pelo “Provão” de Administração e de alguns fatores da prática do processo de ensino/aprendizagem no curso de Administração. Os principais dados obtidos mostram:

  1. os docentes e formandos concordam que as questões sejam claras, bem elaboradas e normais quanto a extensão;
  2. os docentes concordam que parte das questões seja igual e parte seja diferente da forma adotada nas aulas e provas de seus cursos, enquanto os formandos concordam que elas sejam diferentes da forma adotada nas aulas e provas de seus cursos;
  3. alunos e professores consideraram que as disciplinas foram pouco exigentes em relação às necessidades de aprendizagem dos alunos;
  4. houve consenso entre a percepção de docentes e formandos no que se refere a alguns itens. Por exemplo, as maiores exigências do professor são no sentido de que os alunos se dediquem mais e tenham melhor aprendizagem no curso;  o professor deve exigir nas provas o mesmo nível desenvolvido nas aulas; o aluno que não apresentar condições de aprovação deve ser reprovado; o desenvolvimento do aluno depende em grande parte de sua vontade de aprender e de sua dedicação ao aprendizado;
  5. no tocante ao nível de exigência do curso como um todo, a maior parte dos formandos considerou que ele deveria ter exigido um pouco mais. Entretanto o nível do curso foi classificado como bom pelos próprios formandos, e sua dedicação para o curso foi considerada regular.

O autor encerra seu trabalho sugerindo que deve ser adotado pelos docentes, durante o curso, o emprego de questões que desenvolvam no formando o raciocínio lógico, crítico e analítico, e que estabeleçam relações formais e causais entre fenômenos, sendo estas as habilidades estabelecidas pelo MEC para as questões de AFO da prova. Comenta que este princípio parece não ser adotado pelos docentes, pois a maior parte dos formandos declarou que quase todas as questões de AFO são diferentes da forma adotada nas aulas e provas, o que demonstra o despreparo dos formandos para a resolução dessas questões no “Provão”.    
Nota-se, a partir desses dados, que não há clareza sobre o nível de ensino dos docentes e de aprendizado dos formandos.
Bonomi (2004) se refere a importância para as organizações de todo porte do executivo de finanças capacitado a tornar a empresa mais competitiva, mais ágil, com capacidade para reduzir custos, baratear produtos e, finalmente, beneficiar a sociedade por permitir acesso a um maior número de consumidores a seus produtos. O autor comenta que atualmente o diretor financeiro conhece a melhor rota para os negócios, contribui na definição dos rumos da organização e na seleção dos melhores projetos de crescimento.

CONCLUSÕES

Finanças é uma das áreas mais importantes das empresas pois está presente nas atividades de todas as organizações, retrata uma visão geral da empresa, está envolvida com a administração de fundos que os outros departamentos das organizações utilizam, havendo também, implicações financeiras na maioria das decisões empresariais. Os administradores não-financeiros devem entender de administração financeira o suficiente para tratar essas implicações em suas atividades, com o objetivo de que seu trabalho e sua participação nas decisões que envolvam finanças sejam eficazes. Deve ser destacado que os indivíduos também administram suas finanças.
Por esses fatores os estudantes do curso de Administração, independente de sua área de interesse profissional, devem dedicar-se ao aprendizado da área financeira. Esse fato pode ser confirmado por Brigham, Gapenski e Ehrhardt (1999 : 5) ao lembrar que nos EUA o curso “Administração Financeira para executivos não financeiros” tem o mais alto índice de adesão na maioria dos programas de desenvolvimento para executivos.
O processo de ensino/aprendizagem das disciplinas da área de finanças deveria proporcionar aos alunos um nível mais adequado de aprendizagem para satisfazer as necessidades das organizações. Para isso as escolas de Administração devem ajustar o conteúdo das disciplinas de finanças, o material didático para seu ensino, e o aprendizado dos alunos à realidade empresarial brasileira, tendo em vista que a função fundamental dessas IE´s é fornecer mão de obra qualificada de nível superior para administrar as organizações.
Finalizando, deveria ser criado no Brasil um padrão envolvendo a integração entre escolas, empresas e órgãos governamentais competentes para determinar conteúdos e nível de conhecimento que os formandos deveriam possuir.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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