RESUMO
Pretendemos apresentar uma breve reflexão a respeito de como Nicolau Maquiavel analisou situações de ingratidão na política. Para cumprir este objetivo, primeiramente examinaremos a análise do pensador florentino sobre a natureza humana, e como ele conferiu relevância às forças responsáveis pelas ações humanas, isto é, a Virtù e a Fortuna. Para nosso entendimento, somente com este arcabouço teórico mínimo – certa compreensão sobre a natureza humana, virtù e fortuna- será possível compreender as preocupações de Maquiavel a respeito da ingratidão na política.
Palavras-Chaves: Ingratidão, Virtù, Fortuna e Política
ABSTRACT
We intend to present one brief reflection regarding as Nicholas Machiavelli analyzed situations of ungratefulness in the politics. To fulfill this objective, first we will examine the analysis of the Florentine thinker on the nature human being, and as it conferred relevance to the responsible forces for the actions human beings, that is, the Virtù and the Richness. For our agreement, only with this framework minimum theoretician - certain understanding on the nature human being, virtù and richness will be possible to understand the concerns of Maquiavel regarding the ungratefulness in the politics.
Keywords: Ungratefulness, Virtù, Richness and Politics.
Do ponto de vista introdutório, se entendermos a ingratidão como aquele ato tipicamente humano, isto é, uma relação social na qual entre dois homens, um, demonstrou falta de reconhecimento por benefício recebido de outro, para falarmos como Nicolau Maquiavel pensa-a no terreno da política, é preciso verificar antes como o pensador florentino analisou o agir, ou seja, a natureza humana manifesta em ações. Desse modo, é preciso compreender como Maquiavel entende as relações humanas no ambiente das contradições, das adversidades, do inesperado, da glória, enfim, é preciso compreender como ele pensa o homem nos limites de sua ação. Apenas assim, teremos uma certa clareza do que Maquiavel quis dizer com ingratidão na política.
Primeiramente, assinalamos que em Maquiavel a atenção dada aos atos humanos circunscreve aos homens que têm um papel público. Com outras palavras, a relevância dos atos humanos que devem ser estudados são, para Maquiavel, aqueles que se manifestam na esfera pública, atos que provocam resultados no destino da cidade. Esta atenção ao papel cívico das ações humanas é, a nosso ver, resultado de três fontes de influência recebidas por Maquiavel: a primeira, é proveniente dos humanistas cívicos, no caso Petrarca, Colucio Salutati e Leornado Bruni, que ao pensarem sobre uma teoria da ação, formulam a noção de Vida Ativa que significou em seus primórdios a ação humana que se efetiva vinculada aos negócios da polis (BIGNOTTO, 1991); a segunda, é aquela que aparece exatamente na elaboração d´ O Príncipe que é resultado de uma tradição de teóricos do pensamento político denominada “Espelho dos Príncipes” que durante os séculos XIV, XV e inicio do XVI, escreveram manuais de conselhos aos príncipes (SKINNER, 1999) ; a terceira, decorre da experiência prática de Maquiavel na Segunda Chancelaria do governo de Florença entre 1498 e 1512, na qual respondeu por missões diplomáticas, conhecendo assim, líderes políticos de diferentes Estados e do papado (BARINCOU, 1991).
Nas obras principais de Maquiavel, duas referências sobre a natureza humana em geral podemos observar. N´ O Príncipe (MACHIAVELLI, 2001, pp. 148) ele diz “ (...) que os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambicioso de dinheiro (...) “, e nos Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio, afirma:
“Como demonstram todos os que escreveram sobre política, bem como numerosos exemplos históricos, é necessário que quem estabelece a forma de um Estado, e promulga as suas leis, parta do princípio de que todos os homens são maus, estando dispostos a agir com perversidade sempre que haja ocasião.” ( MAQUIAVEL, 1994, pp. 29).
Ao relembrarmos que a primeira obra é um aconselhamento ao príncipe visando à conservação de seu Estado, e a segunda, tem como mote fundamental a defesa da liberdade e o estudo da natureza da corrupção (SKINNER, 1999) dos regimes políticos, podemos deduzir que em âmbas citações Maquiavel observa com devida atenção a natureza humana como um dado fundamental a todos aqueles que governam ou pretendem governar. Assim, a instabilidade das paixões humanas, a maldade inscrita no gênero humano, se caracteriza como algo a ser considerado no terreno das relações entre governante e governados, isto é, no terreno da política. Decorre ainda das citações algo muito claro: enquanto em uma obra Maquiavel alerta o príncipe sobre as fragilidades dos homens que podem dificultar a conservação de seu Estado, na outra, com o mesmo enfoque, ele busca alertar além de príncipes, os fundadores e legisladores no momento da instituição do Estado e da promulgação de suas leis.
Cabe notar que em Maquiavel a natureza humana é sempre a mesma (MAQUIAVEL, 1994), e é até por isto que a história se coloca para ele como mestra, pois pode se imitar os grandes feitos do passado. Mas isso não pode ser compreendido como uma visão determinista, visto que, apesar da natureza humana não mudar, segundo o nosso pensador florentino, o que muda são as circunstancias de cada momento e a forma pela qual os homens com elas se relacionam (MACHIAVELLI, 2001), como veremos logo adiante.
Antes de prosseguirmos, uma precaução: o fato de no texto acima fazermos referência às observações de Maquiavel sobre a natureza humana, não significa a defesa da hipótese de que o pensador florentino definiu o que seja a natureza humana. Partilhamos da reflexão de que Maquiavel não a define, e as referências aqui existentes sobre afirmações do pensador florentino caracterizando a maldade, como um traço do ser humano, têm como objeto salientar meramente as preocupações do mesmo para com os excessos das paixões humanas, que, traduzidas em ações no ambiente da polis, pode pô-las em perigo. De certa forma, os excessos das paixões humanas é uma dificuldade inerente às tarefas do príncipe em manter seu Estado seguro, e também é uma das origens das situações de ingratidão, daí fazermos uma mera referência à natureza humana.
A elaboração do pensador florentino herda também dos clássicos como Aristóteles, Cícero, Boecio, e outros, as preocupações sobre as forças que afetam as ações humanas no ambiente da política, a saber, a Virtù e a Fortuna. No contexto aqui estudado, devemos lembrar que se o príncipe ou o legislador em uma república devem estar atentos à natureza humana, é necessário compreenderem também que os homens ao agirem são limitados por situações que exigem sua contínua superação. Isto significa dizer que em Maquiavel o homem não é um ser de possibilidades infinitas como sugeria Pico de la Mirandola (BIGNOTTO, 1991). Portanto, devemos precisar que as ações humanas envoltas nas situações políticas são determinadas em parte pela virtù e a fortuna.
Evitando entrar na analise de como Maquiavel, no dialogo com os autores clássicos, assimilou e estabeleceu rupturas sobre as noções de virtù e fortuna, nosso objetivo aqui é meramente fazer uma apresentação geral da reflexão que o pensador florentino apresentou a respeito de ambas.
Partindo de uma proposição corrente a todo humanismo renascentista que caracteriza o papel da virtù como ações que visam vencer a fortuna (SKINNER,1999), a apresentação que faremos de ambas enfocará a relação entre as mesmas, visto que, o conceito de fortuna perde toda a força se não falarmos conjuntamente da importância da virtù (BIGNOTTO, 1991), e vice-versa.
Maquiavel no capítulo VI d´ O Príncipe (2001), nos fala das admiráveis ações de Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu, que na qualidade de príncipes novos, tiveram a virtù de edificar grandes cidades e impérios. A virtù é neste momento compreendida como excelência da ação que fez tais homens deixarem suas marcas na história. Mas Maquiavel assinala que justamente a virtù destes homens os fez reconhecerem o momento histórico apropriado para suas ações, ou seja, eles não desprezaram o momento oportuno para agir, pois a fortuna apenas possibilitou a ocasião de poder moldar as coisas como melhor lhes aprouveram. Portanto, a ação destes atores políticos foi excelente primeiramente porque identificaram o momento oportuno para agir e não o desprezaram , e ao agirem, fundaram instituições que deixaram marcas na história da humanidade.
Segundo Maquiavel (2001), estes não foram os únicos procedimentos corretos de Ciro Rômulo, Teseu e Moisés. Para que fossem bem sucedidos foi preciso fazer uso das armas. E com a ausência destas enfrentariam a ruína, tal qual o profeta desarmado Savonarola que sem armas “ (...) fracassou na sua tentativa de reforma quando o povo começou não lhe dar crédito. E ele não tinha meios para manter firmes aqueles que haviam acreditado, nem para fazer com que os incrédulos acreditassem.”( MACHIAVELLI, 2001, pp. 111).
Quais observações iniciais podemos fazer a respeito da relação virtù e fortuna a partir deste capítulo d´ O príncipe? Compreende-se que o príncipe para alcançar êxito em sua ação, deve apropriar da situação que lhe é favorável, isto porque mesmo em posse da virtú, esta apenas se realiza efetivamente na medida em que ele não deixa o momento favorável escapar. Ora, este momento favorável é uma manifestação típica da fortuna, aqui se caracterizando como oportunidade. Assim, a virtú aparece efetivamente na medida em que ela se apropria da fortuna. Porém, não basta o príncipe reconhecer a ocasião. Ele precisa se assegurar dos meios necessários para a eficácia de sua ação, e estes meios são as armas.
Lembramos que segundo Maquiavel (2001), os principais fundamentos de todos os Estados são boas leis e boas armas, e que, onde não há boas armas, não pode haver boas leis. Esta tese é um dos tópicos da divergência de Maquiavel com seus contemporâneos na medida em que segundo nosso pensador florentino, autores humanistas desprezavam a importância da força bruta na política. Tal divergência se tornou fecunda porque contrário ao pensamento humanista corrente, Maquiavel concebia o conceito de virtù pelo menos em parte como uma qualidade militar (SKINNER,1999). E foi devido à atenção dada às armas, à ocasião favorável, e por fim, o resultado se efetivando no surgimento de grandes Estados é que para Maquiavel, Moisés, Ciro, Teseu e Rômulo são considerados homens de virtù.
No capítulo VII d’ O Príncipe (2001), Maquiavel nos fala do caso dos principados adquiridos através da fortuna e com auxílio das armas estrangeiras. Aqui, a linha de abordagem é aquela situação no qual a conquista do príncipe depende diretamente das forças externas. A referência histórica fundamental de Maquiavel é Cesar Bórgia. Este se tornou governante de toda a Romanha graças ao poder político de seu pai, o papa Alexandre VI, além do apoio das armas da França, e da situação favorável decorrente da briga entre as famílias Orsini e os Colona. O que entusiasmou Maquiavel ao observar os passos de Bórgia é o senso de oportunidade deste, pois em pouco tempo dominava Imola, Faenza, e em direção ao mar Adriático, tomou Rimini, Pesaro, e Urbino (BARINCOU, 1991). Porém, avançando nesta região da Toscana Bórgia não tem a aprovação de Luiz XII, e diante de circunstância tão prejudicial, ele decide, segundo Maquiavel (2001, pp. 114), “ (...) não depender mais das armas e da fortuna de outrem.” Desse modo, para Maquiavel a qualidade desta decisão de Bórgia resultava da observação de um percurso no qual tendo conquistado um Estado com muita facilidade, e com pleno apoio da fortuna, passava a um mundo no qual os obstáculos se multiplicavam, obstáculos estes, exatamente resultante de uma obra que tinha poucas raízes (BIGNOTTO, 1991). Assim, ao mesmo tempo em que soube aproveitar das circunstâncias, a virtù de Bórgia se explicita no fato de ele constatar a fraqueza da ação que depende da fortuna de outros, por isto em seguida, Bórgia procurou recrutar soldados e ser senhor de suas tropas (SKINNER, 1988). Aqui a relação entre virtù-fortuna fica clara: Maquiavel sugere que não cabe ao príncipe apenas se apropriar da ocasião, é preciso verificar até em que momento se pode contar com as forças aliadas, ou contar com forças próprias.
Não depender da fortuna de outrem era um mote recorrente entre os humanistas. A compreensão da fortuna como uma deusa a qual devemos temer mesmo quando ela vem carregada de presentes, fazia parte do imaginário de Maquiavel e seus contemporâneos, cuja fonte eram os clássicos. Neste caso, na referência ao Livro 30 da História de Roma de Tito Lívio (SKINNER,1988) é sintomática a exposição da idéia não apenas do grande poder da fortuna, mas o fato de quanto maior for a boa fortuna, tanto menor a confiança que nela se deverá depositar.
Em outra situação, Bórgia revelou ser um governante de virtù quando mesmo em condições desfavoráveis, se aliou à fortuna revertendo-a, e soube com ela obter momentaneamente a honra, a glória, e a fama (SKINNER, 1988). Delegando a Ramiro de Orco a tarefa de pacificar a Romanha, que assim recém conquistada era um lugar de desordem social, e assassinatos, o Duque Valentino (como Bórgia era também chamado) consegue seu objetivo devido à crueldade já conhecida de seu subordinado. Entretanto, percebendo que as ações tirânicas de seu subordinado fez os habitantes mover tanto ódio a seu nome, a ponto de colocar em perigo a estabilidade da província, Bórgia não hesita em mandar assassinar Ramiro de Orco e expor seu corpo em praça pública como um sacrifício à ira do povo. Segundo Maquiavel (2001, pp. 116), “A ferocidade desse espetáculo fez com que o povo ficasse a um tempo satisfeito e espantado.”
Se César Bórgia não foi o exemplo mais perfeito de príncipe virtuoso, na medida em que mesmo não dependendo da fortuna, foi por ela golpeado, uma vez que, acometido por uma moléstia, ficou impossibilitado de fazer articulações que impedisse eleição de um papa inimigo ( MACHIAVELLI, 2001), ele aparece como modelo para Maquiavel porque “(...) partindo de condições favoráveis, teve que enfrentar os reveses da fortuna. Sua função é paradigmática porque concentra os extremos da fortuna e os da virtù.” (BIGNOTTO, 1991, pp. 143).
Bem, se o que vimos até aqui, ou seja, que o príncipe e o legislador devem considerar a maldade da natureza humana e além disso, compreenderem que o agir não é totalmente livre, uma vez que se manifesta em circunstâncias determinadas, ora pela virtù, ora pela fortuna, como entender a reflexão de Maquiavel a respeito da existência da ingratidão na política? Trata-se de saber por que a ingratidão é um dado recorrente nas relações de poder? Mas, Maquiavel avança tentando compreender a partir da história em quais momentos a ingratidão é eficaz para a segurança e liberdade do Estado, e em quais ela o põe em perigo. É isto que veremos agora.
N´ O Príncipe, em seu capítulo XVIII, Maquiavel nos chama atenção para uma situação não exatamente de ingratidão, mas próxima, quando ele alerta para a dificuldade do príncipe em manter a palavra dada ( MACHIAVELLI, 2001). Sugere que ser um homem de princípios, e bons princípios é algo louvável, mas duvida se isto é possível àquele que governa homens e mantém o Estado. A justificativa é que cumprir algo que foi acordado como um princípio imutável seria possível numa sociedade de homens bons, mas isto não existe. Portanto, na medida em que a natureza humana faz uso da maldade, e por isto é inconstante, ora justa, ora injusta, o príncipe não é obrigado, e nem lhe é possível manter a palavra.
A impossibilidade do príncipe cumprir aquilo que foi acordado fica mais claro na análise feita no capítulo XXV d’ O Principe, no qual o pensador reflete sobre o poder da fortuna nos negócios humanos e as formas de a ela resistir ( MACHIAVELLI, 2001). Uma nova característica da fortuna é elucidada: sua inconstância, representada pelo rio que repentinamente alaga toda a planície de maneira impetuosa, e dobra as ações dos homens que tentam resistir. Com esta característica, Maquiavel alerta para a mutabilidade inerente dos negócios humanos que normalmente surpreende o príncipe. Desse modo, o sucesso do príncipe hoje se transforma num amanhã de ruínas, pois ele não previu a inconstância do fenômeno social, e por isto foi arrastado pelo rio da fortuna.
Visando apresentar uma saída para ação do príncipe, Maquiavel retoma o mote característico do humanismo renascentista segundo o qual o papel da virtù é vencer a fortuna, e isto fica claro quando escreve sobre a fortuna, “(...) que seu poder é manifesto onde não existe resistência organizada ...”(MACHIAVELLI, 2001, pp.177). Portanto, é possível vencer a fortuna.. Então, o que seria neste contexto a capacidade de vencer ou resistir à fortuna?
A resposta de Maquiavel adiante é a análise das ações dos príncipes que foram bem sucedidos, e o segredo é que estes mudaram a forma de proceder de acordo com as particularidades do tempo. Desse modo, o príncipe virtuoso é aquele que saiba mudar a natureza de seu agir de acordo com o que é determinado pela necessidade. Sua sabedoria consistirá em se adequar a cada situação, justamente porque as ações humanas são instáveis, e agindo assim, conseguirá manter seu Estado. Portanto, ora aceitar, ora administrar as forças das circunstâncias é a ação típica de um príncipe de virtù.
O respeito para esta realidade prática da política Maquiavel tinha compreendido ao longo de sua experiência diplomática, e principalmente em 1503 com o Cardeal Volterra, e mais tarde, com Pandolfo Petrucci, em cujas conversas de bastidores ouviu e registrou (SKINNER, 1988, pp. 63-4) como segue:
“(...)que a chave para se ter êxito na arte de governar está em se reconhecer a força das circunstâncias, aceitando o que é ditado pela necessidade e harmonizando o próprio comportamento com a exigência dos tempos.”
Decorrente deste traço contingente da política, é que Maquiavel considera que, às vezes, o príncipe poderá manter a palavra dada, mas se em outra situação tal procedimento puser em dificuldade a segurança do Estado, deverá claramente suspendê-la. Assim, se o príncipe visa obter o êxito em suas ações, obrigatoriamente deve mudar seus princípios tão logo a necessidade exija. Tal exigência faculta o príncipe a fazer uso da verdade e da mentira, da avareza e da parcimônia, da magnanimidade e da crueldade, a gratidão e ingratidão.
Fatos históricos com demonstrações claras de ingratidão na política serão analisados por Maquiavel em alguns capítulos do livro I dos Discorsi (1994). No capítulo 28 da referida obra, o pensador florentino nos diz, com apoio na história das repúblicas, “(...) que todos elas foram ingratas para com seus cidadãos” (MAQUIAVEL, 1994, pp.97). Aqui verificamos ainda de maneira superficial que a ingratidão é moeda corrente nas relações políticas. Porém, Maquiavel observa que Roma foi menos ingrata com seus cidadãos do que Atenas. A justificativa que caracteriza a Roma republicana como menos ingrata se traduz no fato de que tal Estado não tinha motivos para desconfiar de seus cidadãos, e desse modo, não tinha porque ofendê-los gratuitamente (MAQUIAVEL, 1994). Maquiavel faz um vinculo claro entre relações de desconfiança e manifestação de ingratidão. Se Roma foi menos ingrata, isto resultava de que na republica romana havia o exercício da liberdade, no qual os conflitos dos grupos obrigavam relações políticas mais transparentes. A rigor, os conflitos é que possibilitavam a emergência da liberdade ( MAQUIAVEL, 1994), e assim, no caso de Roma nenhum cidadão teria motivos para usurpar a liberdade. Logo, Roma foi menos ingrata com os seus. A análise sobre Atenas do período de Pisístrato apresenta fatos exatamente contrários: uma cidade que viveu a liberdade, e depois perdeu-a para um tirano, faz com que ao retomar tal liberdade se torne mais vingativa a ponto de fazer uso desmedido da ingratidão, punindo cidadãos “(...) não pelos seus crimes, mas pela sombra de um equívoco...” (MAQUIAVEL, 1994, p. 97). Compreende-se que Maquiavel começa a chamar atenção para os atos de ingratidão que estão muito ligados aos excessos das paixões humanas que, manifestas em ações políticas na cidade, põem em risco a liberdade cívica.
Dois fatos, um envolvendo Lucio Tarquínio Colatino, e outro, Públio Valério, demonstram situações próximas de ingratidão do povo romano com seus líderes. A história de Tarquínio é sintomática, pois ao mesmo tempo em que pertence à família do ultimo rei de Roma, no caso, Tarquínio, o Soberbo, ele participa da conspiração que encerra o regime monárquico de duzentos e quarenta e quatro anos (LIVIO, 1989), cujo resultado é a expulsão dos Tarquínios e o inicio da república. Imediatamente dois cônsules foram nomeados: Lucio Júnio Bruto, e Lucio Tarquínio Colatino.
Se Maquiavel já alertava que o excesso das paixões é um dado que qualquer governante não pode desprezar, este inicio da liberdade na república romana, e conseqüentemente, o medo de perdê-la, configurou um ambiente político de paixões descontroladas muito bem salientado por Tito Lívio (1989, p. 107) quando diz:
“Mas não sei se os limites da prudência não foram ultrapassados com aqueles excessos de precauções, que entretanto visava a fortalecer a liberdade. Assim, o segundo cônsul [ Tarquínio Colatino], que nenhum erro cometera, tornou-se suspeito aos romanos por causa de seu nome.”
A expulsão do recém cônsul empossado Tarquínio Colatino resultou de uma desconfiança do povo para com o histórico da família dos Tarquínios, que no imaginário dos romanos, sempre foram acostumados ao trono. Assim, como diz Tito Lívio ( 1989, p. 107) relatando o momento público da expulsão “O povo romano não acreditava ter conseguido a liberdade total porque não só permaneciam na cidade parentes dos reis, o nome dos reis, como também, um dos seus membros exercia a magistratura suprema, e isso era um estorvo, um obstáculo à liberdade.”
Logo após este episódio, Públio Valério foi proclamado novo cônsul ao lado de Lucio Júnio Bruto. Ocorre que depois de um conflito com os Tarquínios que pretendiam retomar Roma, Júnio Bruto é morto em combate, e como decorrência, Valério fica por um tempo como único cônsul. Duas ações de Valério despertaram a desconfiança do povo: a demora em nomear outro cônsul, e a construção de sua casa no alto do monte Veio (LIVIO, 1989), provavelmente local estratégico para uma visão da cidade.
A ira do povo obrigou Valério se explicar, a mudar o local de sua residência, e posteriormente, fazer os encaminhamentos que elegeram Espúrio Lucrécio como novo cônsul. Somente assim Valério afastou as suspeitas de que tivesse pretensões monárquicas (LIVIO, 1989).
Não identificando estes fatos como manifestações puras de ingratidão, Maquiavel sinalizou situações nas quais o povo foi ingrato com seus líderes de maneira despropositada. Seu intento é de mostrar como tais situações estão ligadas às próprias dificuldades do homem em administrar suas paixões, cujos excessos podem provocar situações de perigo ao Estado.
Buscando compreender se os atos de ingratidão acompanham mais o povo ou o príncipe, o pensador florentino observa que a origem da ingratidão está na avareza e na suspeição (MAQUIAVEL, 1994). Diz que o primeiro caso se caracteriza como uma falta imperdoável, mas no segundo, isto é, a ingratidão proveniente da desconfiança, ela é quase que inerente ao processo político. Para Maquiavel é impossível ao príncipe não ser ingrato em certas situações sob pena dele por em risco a segurança do Estado ou a liberdade da república. Um general que recebe uma missão e a cumpre com eficácia, necessariamente ganha reputação do povo, de seus soldados, e de seus inimigos (MAQUIAVEL, 1994), e diante disto, o príncipe deve enfraquecer sua reputação, lhe tirando o comando do exército, ou atribuindo a vitória à fraqueza dos inimigos. Ora, por que o príncipe deve agir desse modo? Simplesmente porque se seu objetivo é manter o Estado, o sucesso de seu subordinado lhe traz insegurança, e “Como a ambição e a desconfiança são naturais nos homens (...)” (MAQUIAVEL, 1994, pp. 9), tanto o general, como o príncipe, podem cometer excessos, e desse modo, desestabilizar o Estado.
Este é exatamente o perigo que acontece em uma república quando encontra em um de seus jovens de aparente virtù as características do príncipe novo. Pois se a ambição o incita, ele pode levar a republica à ruína, tal qual a história de “ (...) Cosmo de Médici, que plantou em Florença os fundamentos da grandeza de sua família, alcançou – pela sua sabedoria e pela cegueira de seus concidadãos – uma tal autoridade que começou a inspirar temores ao governo.” (MAQUIAVEL, 1994, p. 110).
A história de príncipes que por necessidade tiveram que ser ingratos é lembrada através de Vespasiano que, recém nomeado imperador, agiu com indiferença a seu melhor comandante, António Primo, tirando-lhe o comando do exército e toda a sua autoridade. A recompensa que Gonsalvo Ferrante, como melhor general do rei da Espanha, recebeu por sua prudência e coragem foi a morte por desgosto decorrente também da perda do comando do exército (MAQUIAVEL, 1994). E porque não lembrar de Ramiro de Orco, que após cumprir as recomendações de seu comandante César Bórgia, é assassinado a mando deste.
Mas, se um príncipe ou um capitão não querem ser ingratos, Maquiavel sugere algumas saídas. No caso do príncipe, deve ele assumir o comando das expedições militares, para assim obter os créditos da vitória. No caso do capitão há dois caminhos: após a vitória,
deixar o exército, e se lançar nos braços do príncipe evitando demonstrar ambição e o orgulho, ou então, agir de modo contrário com coragem e sem hesitação, isto é, tomar o poder do príncipe, visando demonstrar que as vitórias até então foram suas.
O único caso real de ingratidão que segundo Maquiavel ocorreu em Roma, se manifestou na história de Cipião (MAQUIAVEL, 1994). Este é uma das referências contínuas de Maquiavel como exemplo do homem de virtù. Cipião como general de várias batalhas, venceu Aníbal, um inimigo de poder e grandeza, pôs fim a tal guerra longa e perigosa, e alcançou a vitória com rapidez, além disso, sempre foi identificado como um jovem prudente, enfim, um homem de muitas virtudes admiráveis. Pela qualidade de seu modo de agir, involuntariamente intimidava até os magistrados de Roma, a ponto de sua vida parecer ser “(...) tão diferente da vida dos homens comuns (...)” (MAQUIAVEL, 1994, p.101). É diante de tal situação que Catão ao perceber “(....) que uma cidade não podia se dizer livre quando os magistrados temiam um simples cidadão...” (Ibid, p.101), foi o primeiro a levantar voz contra ele, e assim, o povo o seguiu na advertência a Cipião. A história de Cipião revela algo não somente novo, mas muito peculiar. Justamente aquele conjunto de qualidades, que se diferenciando ao longo dos séculos foram tão requeridas aos homens, desde as primeiras elaborações de Aristóteles, passando por Cícero, e em Petrarca com a noção de Vida Ativa, e por muitos teóricos do Renascimento, a saber, a virtù , agora põe em fraqueza a liberdade da república. Cipião foi censurado simplesmente porque foi corajoso, ousado, eficaz, prudente, sábio em suas ações. Foi censurado porque exercitou a virtù. Portanto, o uso da virtù, em certas circunstâncias pode por em risco a liberdade da república. Mas isto é problemático, porque em Maquiavel o príncipe de virtù, ou a sociedade de cidadãos virtuosos, é aquela que busca, ora manter o Estado, ora defender a liberdade e se precaver da corrupção. Poderíamos nos perguntar, se a dificuldade de Roma, neste caso de ingratidão do povo com Cipião, resulta da virtù deste líder, ou da fraqueza da cidade que se vê intimidada perante a excelência das ações virtuosas? Ora, Maquiavel certamente responderia que tal questão é mal formulada pois não há como encontrar culpados, uma vez que, as relações políticas se manifestam no terreno do indeterminado, no qual as forças articulam situações e decisões próprias de um jogo cujo resultado é o aqui e agora, sem nenhuma promessa de que será o mesmo no amanhã. Desse modo conclui o pensador, que o povo quando é ingrato por desconfiança, erra menos que o príncipe, sendo que é também impossível ao príncipe ser sempre grato.
Após este percurso, quais conclusões podemos observar sobre a reflexão de Maquiavel acerca da ingratidão na política? Primeiro, é que a ingratidão é inerente à ação política. Cedo ou tarde, um príncipe terá que ser ingrato com um subordinado, caso contrário, selará sua ruína. E este subordinado que por eficácia de sua ação se aproximar da honra, da glória e da fama, necessariamente será convidado pela fortuna para agir em duas situações excludentes: provar fidelidade ao príncipe, ou tomar-lhe o poder. A persistência de uma realidade política na qual o subordinado obtenha continuamente eficácia nos resultados, põe em insegurança não apenas o príncipe, mas ele mesmo, e o Estado. Tal conjuntura no ambiente da política é insustentável, daí a ingratidão.
Segundo, é que a ingratidão resulta das fragilidades das paixões humanas e da forma como os homens a administram. Um príncipe que busca manter seu Estado por meio do ócio, que assuma as conseqüências (MAQUIAVEL, 1994, pp.103); um comandante que não quer receber a ingratidão de seu príncipe, que aja, mas sem hesitar. Muitos generais que nesta situação caíram em ruínas, e dificultaram a emersão de grandes Estados, cometeram tal erro porque não souberam ser, nem de uma virtude absoluta, nem inteiramente criminosos.
Terceiro, é que a ingratidão quando manifesta em um Estado fraco, pode facilmente arrastá-lo para a tirania, mas se tratando de uma república forte, na qual o povo exercita a liberdade, ela pode produzir um grande bem (Ibid, pp.97 -100), como em Roma, no qual a ingratidão do povo, apesar dos excessos, fez Públio Valério se explicar na praça pública, e com isto, o povo reafirmou a todos quem realmente exercia o poder na república. No caso de Cipião, a advertência de Catão aprovada pelo povo, teve como fim a prevenção a qualquer atitude ambiciosa devido às fraquezas das paixões humanas que facilmente põem em dificuldade a república. Em ambos os casos, a ingratidão do povo fortaleceu a liberdade.
Quarto, a ingratidão aparece porque no terreno da política é justamente impossível ser eternamente grato, verdadeiro, honesto, amigo, parcimonioso, ou ser (desculpe a palavra) eternamente qualquer coisa do ponto de vista da ação. Maquiavel busca mostrar que as relações de poder na esfera pública envolvem a indeterminação do mundo histórico, e assim, o político não tem o direito, e nem lhe é possível, manter suas opiniões e ações em princípios imutáveis, uma vez que, ele visa um futuro inexistente. Se uma situação que no momento do aqui e agora exige veracidade, agirá com veracidade, se necessitar da mentira, agirá com a mentira. Por isto, Maquiavel observará que a virtù do governante é saber se adequar às circunstâncias, para poder superá-las.
Finalmente, quinto, se a ingratidão, como a mentira é apenas uma pequena manifestação da indeterminação inerente ao processo político, ela resulta também de um saber do príncipe ou da sociedade virtuosa que se faz a cada momento. Se antes ficou claro que a sabedoria do príncipe é ter a capacidade de se adequar às circunstâncias, este saber não é um conteúdo de conhecimento que como modelo ideal prescreve como o homem deve agir, pois Maquiavel não fala de como o homem deveria ser, senão como ele é. Na realidade, este saber é um não-saber (LEFORT, 1972), no sentido em que não é palavra definitiva, pois é preciso ao príncipe e a sociedade o aqui e agora dos desdobramentos políticos, para ver qual a melhor conduta a seguir, cujo resultado é ainda inesperado. É neste sentido que a ação do ator político é essencialmente criação contínua da realidade política, que por ser contingente, o obrigará a novas ações.
BARINCOU, Edmond. Maquiavel Por Ele Mesmo. Trad. Alberto de Los Santos. Brasília, Editora UnB. 1991.
BIGNOTTO, Newton. Maquiavel Republicano. São Paulo, Edições Loyola, 1991.
LEFORT, Claude. Le Travail de L´Oeuvre Machiavel. Paris, Éditions Gallimard, 1972.
LIVIO, Tito. História de Roma. Trad. Paulo M. Peixoto. São Paulo, Editora Paumape, 1989.
MACHIAVELLI, Niccolò. O Príncipe. Trad. Lívio Xavier. Introd. de Isaiah Berlin. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001.
MAQUIAVEL, Nicolau. Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio. Trad. Sergio Bath. Brasília, Editora UnB, 1994.
SKINNER, Quentin. As Fundações do Pensamento Político Moderno. Trad. R. Janine. Ribeiro e Laura T. Motta. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.
_________ Maquiavel Pensamento Político. Trad. Maria L. Montes. São Paulo, Editora Brasiliense, 1988.
1 – Este artigo foi originalmente apresentado no 2º Simpósio Interdisciplinar do Núcleo de Estudos do Renascimento – Humanismo, Política e Utopia Renascentistas” realizado na PUC/SP, em setembro de 2001.
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